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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

O que é o Espiritismo

 


Palestra apresentada no Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor em 9 de abril de 2022.

Marco Aurélio Gomes de Oliveira

         Quem não conhece alguém - ou não é a própria pessoa - que já teve algum tipo de contato com os Espíritos (pela visão, audição, ruído ou movimento de objetos) e tem uma história para contar sobre isso? Desde que o mundo é mundo, desde que a criatura humana se entende por gente, essas histórias existem. Começamos a ter contato com elas a partir do momento em que as pessoas do passado resolveram deixar registros materiais - escritos, pintados, esculpidos, transmitidos oralmente e, depois, registrados em papel - de seus pensamentos e de suas vivências. Muita gente com essa capacidade de entrar em contato com os Espíritos, que no passado podem ter sido tomados como "deuses", valeu-se de sua posição para exercer dominação sobre os demais. Outros, podem ter simulado essa capacidade. Assim, nem todos esses registros devem ser a expressão da verdade, mas certamente são indicadores de que a morte sempre foi um objeto de reflexões e de que, em meio ao que pode ter sido inventado por alguém interessado em destaque e poder, existam relatos reais.

         Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, conta-nos, em suas Obras Póstumas que em 1854 ouviu falar, pela primeira vez, nas mesas girantes. "Já sabe da singular propriedade que se acaba de descobrir no Magnetismo? Parece que já não são somente as pessoas que se podem magnetizar, mas também as mesas, conseguindo que elas girem e caminhem à vontade"[1], disse-lhe o senhor Fortier. Kardec não se espantou porque, para ele, o fluido magnético, "que é uma espécie de eletricidade, pode perfeitamente atuar sobre os corpos inertes e fazer que eles se movam."[2] Pouco tempo depois, a mesma pessoa o encontra e o informa que as mesas não somente se moviam como falavam. "Só acreditarei quando o vir e quando me provarem que uma mesa tem cérebro para pensar, nervos para sentir (...)".[3] Kardec, então, ignorava a causa do movimento das mesas que expunha uma manifestação de inteligência. Um ano depois, em 1855, encontrou-se com um amigo que, por primeira vez, falou-lhe na intervenção dos Espíritos no fenômeno e contou-lhe coisas consideradas por ele tão surpreendentes que, longe de o convencerem, aumentaram-lhe as dúvidas. Em maio desse mesmo ano teve notícias desse mesmo fenômeno vindas de uma pessoa instruída, fria e calma, que falou-lhe num tom sem entusiasmo. Não era uma pessoa que se mostrasse empolgada porque deslumbrada. Pelo contrário. Foi convidado a participar de uma reunião. Ali, pela primeira vez presenciou o fenômeno.

Minhas ideias estavam longe de precisar-se, mas havia ali um fato que necessariamente decorria de uma causa. Eu entrevia, naquelas aparentes futilidades, no passatempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim estudar a fundo.[4]

         Allan Kardec conta-nos que eram numerosas essas reuniões e nelas eram admitidos todos os que solicitassem permissão para assisti-las.

Eram geralmente frívolos os assuntos tratados. Os assistentes se ocupavam, principalmente, de coisas respeitantes à vida material, ao futuro, numa palavra, de coisas que nada tinham de realmente sério; a curiosidade e o divertimento eram os móveis capitais de todos. [5]

         Nessas reuniões começou seus estudos sérios de Espiritismo. Relata-nos que nunca elaborava teorias preconcebidas,

observava cuidadosamente, comparava, deduzia consequências; dos efeitos procurava remontar às causas, por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo por válida uma explicação, senão quando resolvia todas as dificuldades da questão.[6]

         Entendeu que os Espíritos, não sendo outra coisa senão as almas dos homens que já viveram, "não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau, que haviam alcançado, de adiantamento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal."[7] Kardec afirma que essa certeza o preservou de acreditar na infalibilidade dos Espíritos e o impediu de formular teorias precipitadas. É importante destacar isso porque, no dias atuais, muita gente abre mão do bom senso e da razão para acreditar de maneira cega naquilo que os Espíritos dizem por intermédio dos médiuns, muitas vezes por simpatia por estes mesmos médiuns. Em O que é o Espiritismo, Kardec recorda-nos que os Espíritos são "o reflexo do mundo corporal; neles se encontram os mesmos vícios e as mesmas virtudes; há entre eles sábios, ignorantes e charlatães, prudentes e levianos, filósofos, raciocinadores, sistemáticos".[8] Ainda no mesmo livro, Kardec nos diz que aquele que esperasse receber todas as informações prontas dos Espíritos, aquele que, de braços cruzados e sentado, aguardasse que estes lhe trouxessem todas as descobertas e invenções, estaria em erro. Afirma que Deus quer que trabalhemos e raciocinemos e que, através do nosso esforço, alcancemos o conhecimento. O Espiritismo, que é uma ciência de observação - não percam isso de vista, ciência de observação - objetiva estudar os Espíritos, a fim de que fiquemos sabendo "o que seremos um dia". [9] E em sendo uma ciência de observação, diz Kardec, não é "uma arte de adivinhar e especular". [10] Estuda-se para conhecer o estado dos Espíritos no mundo invisível, as relações que estabelecem conosco, a ação oculta deles sobre o mundo material e não para tirar vantagens materiais. Olhamos para eles para refletir no que somos hoje e no que viremos a ser. Olhamos para eles a fim de refletir sobre o nosso presente e o nosso futuro, individual e coletivo.

         Para ideias novas, palavras novas. Allan Kardec evita usar as palavras "espiritualista" e "espiritualismo" porque estas já tinham significados bem conhecidos. Todo aquele que acredita que exista em nós alguma coisa além da matéria é espiritualista. O católico e o protestante, por exemplo, se enquadram aí. Porém, diferente dos espíritas, uma boa parte deles não acredita que seja possível que os Espíritos se manifestem e entrem em contato conosco. Assim, "Espiritismo" e "espírita" foram palavras criadas por Allan Kardec para dar conta daqueles que acreditam na existência dos Espíritos e em suas manifestações.        [11]

         Ao estudarmos a obra de Allan Kardec percebemos, de sua parte, certo receio em dizer que o Espiritismo é uma religião. Numa definição que apresenta logo no início de O que é o Espiritismo, ele apresenta o Espiritismo como "uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como Filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações". [12] A partir do esforço de observação e análise do fenômeno da manifestação dos Espíritos, decorreria, tanto do fenômeno em si (que atesta a sobrevivência da alma à morte) quanto do conjunto dos ensinamentos dos Espíritos, uma filosofia de consequências morais. No mesmo livro, Kardec afirma a proximidade entre a ideia de religião e o Espiritismo, porque este concordaria com seus fundamentos dela.

(...) os Espíritos proclamam um Deus único, soberanamente justo e bom; eles dizem que o homem é livre e responsável por seus atos, recompensado ou punido pelo bem ou pelo mal que houver feito; colocam acima de todas as virtudes a caridade evangélica e a seguinte regra sublime ensinada pelo Cristo: fazer aos outros como queremos que nos seja feito.

Não serão estes os fundamentos da religião? [13]

         O receio de Kardec na definição do Espiritismo como religião tem a ver com a ideia comum que se faz dela, associando-a a cultos, rituais, paramentos e sacerdotes, tudo aquilo que o Espiritismo não tem. Ele deixa clara sua posição na Revista Espírita de dezembro de 1868.

Por que, pois, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Pela razão de que não há senão uma palavra para expressar duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; que ela desperta, exclusivamente, uma idéia de forma, e que o Espiritismo não a tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria nele senão uma nova edição, uma variante, querendo-se, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com um cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo, e dos abusos contra os quais a opinião é freqüentemente levantada. [14]

         Já que são as almas dos homens que já viveram que se manifestam, como saber se o que dizem os Espíritos sobre a vida e sobre as realidades do mundo espiritual é ou não correto? Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec propôs um método: o controle universal do ensino dos Espíritos. Não se pode impedir que os Espíritos se manifestem. Se os que se consideram inimigos do Espiritismo tentassem proibir sua prática, não teriam sucesso; se mandassem prender os médiuns de uma cidade ou país, eles receberiam suas comunicações nas cadeias, enquanto que, em outras partes do mundo, onde existissem médiuns - conscientes ou não de suas mediunidades – os Espíritos continuariam se comunicando com a humanidade. Fossem mesmo todos os médiuns exterminados - se isso fosse possível, porque todos somos, de acordo com O livro dos médiuns, mais ou menos médiuns - poderia ser provocada uma breve interrupção nas comunicações, mas... Como todo dia nasce gente, todo dia nasce médium. E as comunicações seriam restabelecidas. Notem que quero demonstrar que a mediunidade está disseminada pelo mundo: onde há gente, há médium. Assim, os Espíritos manifestam-se por toda a parte. Comunicar-se com eles não é privilégio de quem quer que seja. Como eles são as almas dos homens que já morreram e entre os encarnados há os sábios e os fanfarrões, entre os Espíritos também; Se existisse apenas um médium, este poderia ser enganado por algum Espírito interessado apenas em se divertir com a cara de alguém. Agora, é muito mais difícil enganar um enorme conjunto de pessoas que recebem comunicações de Espíritos diferentes em vários pontos diferentes do mundo. Allan Kardec diz que "nessa universalidade do ensino dos Espíritos reside a força do Espiritismo (...) milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente em todos os recantos do planeta, proclamando os mesmos princípios."[15] Ou seja: aquilo que é dito de maneira igual em diferentes pontos do planeta por diferentes médiuns e diferentes Espíritos é um indicador de verdade. Se o que é falado por algum Espírito numa cidadezinha do Sul do Brasil, concorda com o que é ensinado por outro Espírito em outra cidadezinha do México e, assim por diante, estamos diante de um conhecimento que merece ser considerado por nós. Essa verificação universal, diz Kardec, "constitui uma garantia para a unidade futura do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. Aí é que, no porvir, se encontrará o critério da verdade." [16] Kardec ainda diz que "não será a opinião de um homem que se aliarão os outros, mas à voz unânime dos Espíritos" [17], e quando ele escreve isso também faz referência a si mesmo. Vale para ele e para qualquer um. Qualquer um!

         O Espiritismo possui cinco princípios básicos que são abordados nas obras de Allan Kardec e nas dos demais autores: 1º) Existência de Deus; 2º) Imortalidade da alma; 3º) Comunicabilidade dos Espíritos; 4º) Reencarnação e 5º) Pluralidade dos mundos habitados. A moral que os Espíritos ensinam é a do Cristo, que eles, através de seus ensinamentos, acrescentam os princípios que regem as relações entre encarnados e desencarnados.

         O Espiritismo, diz Allan Kardec em A Gênese, possui duplo caráter: "participa ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica."[18] Ele não é o resultado da mente de Kardec, o fruto do trabalho de um único homem. Os ensinamentos que reúne o Espiritismo, que dão conta do estado em que se encontram os Espíritos no mundo invisível e das consequências morais das ações humanas, foram recebidos dos Espíritos. Mas aqueles que receberam esses ensinamentos não eram seres irracionais, passivos, que tivessem aberto mão da razão. Aqueles que os receberam não estavam

dispensados do trabalho da observação e da pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-arbítrio; porque não lhes é interdito o exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põe sobre os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, a fim de tirar ele próprio as ilações e aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e a iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem. [19]

         Notem que os Espíritos nos envolvem, à nós que estamos encarnados, na elaboração da Doutrina Espírita. E faz todo o sentido, porque os Espíritos, no mundo invisível, participam da humanidade! São parte dela! Hoje, aqui estamos nós encarnados e muitos deles lá, no mundo espiritual, desencarnados; amanhã, seremos nós os desencarnados e muitos deles serão os encarnados! Os Espíritos verdadeiramente sérios e comprometidos com a verdade nos aconselham o exame das comunicações espirituais que recebamos. O Espírito Erasto, em O livro dos Médiuns, faz a Kardec recomendação muito sensata nesse sentido.

Na dúvida, abstém-te (...) Não admitais, portanto, senão o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evidência. Desde que uma opinião nova venha a ser expedida, por pouco que vos pareça duvidosa, fazei-a passar pelo crisol da razão e da lógica e rejeitai desassombradamente o que a razão e bom-senso reprovarem. Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.[20]

         A verdade se impõe. Se a recusamos aqui, ela é dita em várias outras partes por diferentes Espíritos através de diferentes médiuns e o controle universal do ensino dos Espíritos a promove e a consolida. A mentira costuma ter feitos imediatos e destruidores, que podem comprometer o trabalho e a imagem dos médiuns e da própria doutrina na opinião pública. Percebam, por estas citações, que há, por parte de Allan Kardec e dos Espíritos sérios um constante chamamento à razão e a responsabilidade pessoal na análise daquilo que é trazido pelos Espíritos. Nada deve ser aceito cegamente dos Espíritos! Em O livro dos Médiuns, não há nenhuma parte onde se diga que se deve acolher tudo que os Espíritos digam como verdade, como também não há qualquer parte que trate de médiuns perfeitos... Porque estes não existem, nem nunca existiram! Não é a pretensa "autoridade" moral do médium que é garantia de verdade de qualquer comunicação espiritual! Nesse sentido, toda idolatria de médiuns é improdutiva e prejudicial àqueles que idolatram e, de uma certa forma, prejudicial também à doutrina, porque demonstra, àqueles que não são espíritas, como também aos adversários da doutrina, que seus adeptos estão abrindo mão da razão e do bom senso. E ao fazerem isso estão deixando de lado, por desconhecimento ou distração, exatamente o que um dos seus principais organizadores - Allan Kardec - e os Espíritos cujos ensinamentos ele reuniu, recomendaram.

         Ainda no que diz respeito à participação dos encarnados na estruturação da Doutrina Espírita, Kardec nos traz um exemplo no primeiro capítulo de A Gênese, aliás, um capítulo fundamental para as reflexões dos espíritas. Eles nos conta que, no mundo dos Espíritos, ocorre um fenômeno do qual muita gente não fazia ideia até então: há Espíritos que não se consideram mortos. Os Espíritos Superiores, que conhecem perfeitamente essa realidade, não foram até Kardec e lhe disseram: "Olha, Kardec: existem Espíritos que não sabem que morreram, se julgam encarnados e mantém todos os seus costumes e vícios." O que eles fizeram?

Provocaram a manifestação de Espíritos desta categoria para que observássemos. (...) A multiplicidade de fatos análogos demonstrou que o caso não era excepcional, que constituía uma das fases da vida espiritual; pode-se então estudar todas as variedades e as causas de tão singular ilusão, reconhecer que tal situação é sobretudo própria de Espíritos pouco adiantados moralmente e peculiar a certos gêneros de morte; que é temporária, podendo, todavia, durar semanas, meses e anos. Foi assim que a teoria nasceu da observação.[21]

         Decorrendo da observação, percebemos aqui que os Espíritos inferiores, em condições de sofrimento moral e ignorância, também concorrem, com suas experiências de vida material (quando encarnados) e no mundo espiritual, para a construção do edifício da Doutrina Espírita. O grande e o pequeno participam com sua parcela na elaboração e desenvolvimento do Espiritismo. O Espiritismo é obra da humanidade dos dois lados da vida! Quando os Espíritos comunicam-se nas reuniões mediúnicas chamadas de desobsessão ou de esclarecimentos e dialogam com os encarnados, estes muitas vezes pensam que estão ali para beneficiar aqueles irmãos em condição de sofrimento. Sem dúvidas que esse contato, supervisionado pelos Espíritos Bons, traz benefícios para aqueles Espíritos em sofrimento. Porém, os encarnados se beneficiam enormemente com a presença deles, para além da ajuda da palavra e da solidariedade que lhes emprestam: estes Espíritos, ao trazerem suas dores e lutas, ensinam aos encarnados aquilo que eles podem vir a ser, caso não emendem sua conduta e retifiquem seus caminhos morais.

         Allan Kardec, na nota de rodapé do item 45 de A Gênese reflete sobre seu papel na elaboração da Doutrina Espírita. Apresenta-se como "um observador atento, que estuda os fatos para lhes descobrir a causa e tirar-lhes as consequências." [22] Como fez isso? Afirma ter comparado todos os ensinamentos que conseguiu reunir - ele trocava cartas com outros espíritas[23] - e depois coordenou o conjunto.

Em suma, estudamos e demos ao público o fruto das nossas indagações, sem atribuirmos aos nossos trabalhos o valor maior do que o de uma obra filosófica deduzida da observação e da experiência, sem nunca nos considerarmos chefe da doutrina, nem procurarmos impor as nossas ideias a quem quer que seja.[24]

         Demonstrada a necessidade de participação dos encarnados na elaboração da Doutrina Espírita, recolhendo, observando, analisando, comparando e tirando conclusões dos ensinamentos dos Espíritos e, apoiando-se em fatos, verifica-se que ela tem que ser progressiva, como toda ciência de observação. Dessa forma, é aliada da ciência.

Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará. [25]

         Não há livros sagrados no Espiritismo. Aberto ao progresso da ciência, e portanto, progressista, Kardec ficaria muito espantado se alguém sacralizasse ou santificasse seus livros, impedindo ou inibindo, com isso, a análise deles à luz das descobertas dos diferentes ramos da produção do conhecimento ao longo do tempo. É importante destacar essa relação de proximidade do Espiritismo com a ciência, seus métodos, a racionalidade e valorizá-los porque vivemos, no Brasil, tempos de burrice irracionalidade empoderada e orgulhosa, que se manifesta nos negacionismos daqueles que são contra vacinas (e a favor das doenças), daqueles que negam as mudanças climáticas provocadas pelas ações dos homens ricos (o que é fartamente documentado pelos cientistas) e daqueles, até, que chegam ao ponto de negar a forma esférica da Terra (não é uma esfera perfeita, porque achatada nos polos).

         O conhecimento das relações que podem ser estabelecidas entre encarnados e desencarnados traz uma série de consequências morais para nós, encarnados. Allan Kardec diz que esse conhecimento "não pode deixar de acarretar, generalizando-se, profunda modificação nos costumes, caráter, hábitos, assim como nas crenças que tão grande influência exerceu sobre as relações sociais."[26] Trazendo de volta a mensagem dos que atravessaram a morte, o Espiritismo nos revela a vida vitoriosa que se faz presente em toda a parte. O evangelho de João registra a promessa da vinda do Consolador, "que vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito". [27] O Espiritismo, nos diz Kardec, "realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança." [28]

         Saber que a vida continua e que nossas ações no presente gerarão efeitos futuros traz, para nós, a responsabilidade de emendarmos nossa conduta pelo mais alto padrão de moral. Sabendo disso, já não se pode viver como se vivia antes, como todos. Viver tentando passar por cima dos outros, para se dar bem a qualquer custo, já não deve ser para nós e para ninguém, porque estaremos nos comprometendo pela soma de erros cometidos e com aqueles que fizermos mal por causa de nossa ganância. Explorar o trabalho dos outros para enriquecermos? O papel do ambicioso que esgota os outros pelo trabalho não cabe mais. E, para além de não caber-lhe mais, tem que colocar-se o dever moral de dar combate incessante a essa forma de sociabilidade dominante chamada capitalismo que transforma tudo em mercadoria e torna cada vez mais difícil a vida de bilhões de pessoas. O espírita deverá ser aquele que se conduz retamente, com o dever moral de caminhar no mundo erguendo aqueles que não aguentaram o peso das próprias provas e/ou que foram esmagados pela ganância dos outros e deixados de lado, descartados, como vidas sem importância.

         A indiferença com a forma de sociabilidade capitalista reforça a miséria e sofrimento para a maioria das pessoas. As favelas que conheço aqui no Rio de Janeiro aumentaram de tamanho no decorrer da minha própria existência de quarenta e um anos. Um outro futuro e uma outra forma de sociabilidade devem ser pensados e construídos, que não mais comportem a exploração do homem pelo homem e o descarte destes como coisas indesejáveis. Essa nova sociabilidade também deve assumir outro tipo de relação com o meio ambiente que não seja a da lógica da destruição. Estamos neste planeta e a ele voltaremos, se a nossa conduta nos permitir e não formos tão nocivos que nossa presença atrapalhe a maioria. Que tipo de planeta vamos encontrar? Há poucos dias, na segunda quinzena de março de 2022, "Estações meteorológicas registraram na sexta-feira (18) uma marca 40º C acima do normal em partes da Antártida e 30ºC acima da média no Ártico, segundo a agência de notícias Associated Press (AP)." [29] A intervenção humana atrás de lucro a qualquer custo tem provocado o aquecimento global, gerado pelos gases de efeito estufa. Além disso, ainda temos o desmatamento das florestas por queimadas para a implantação de pastos ou para o plantio de soja e outras culturas voltadas à exportação.[30] Temos, ainda a poluição dos oceanos, que colocam em risco a existência de vários animais. Tudo isso está afetando o clima do planeta, concorrendo para sua deterioração. Os períodos de seca estão mais prolongados; as chuvas, quando vem, cada vez mais concentradas e fortes, provocando alagamentos.[31] Ondas de calor estão provocando cada vez mais mortes de idosos.[32] Com as mudanças climáticas, algumas regiões do planeta podem tornar-se inabitáveis, tanto pelo aumento dos oceanos quanto pelo calor extremo.[33] Sozinhos, isolados, pouco podemos fazer para lutar contra isso. Importa pensarmos nessas questões agora, qualquer que seja a nossa idade. Os mais jovens tem anos pela frente; os mais velhos, com menos tempo, a seu turno reencarnarão neste mesmo planeta. Se nada mudar na defesa do meio ambiente, se todos nós, presentes a esta reunião, desencarnarmos em, no máximo, oitenta anos, as condições climáticas do planeta serão muito piores do que as atuais. Imaginando que passemos em torno de oitenta a cento e vinte anos no mundo espiritual, reencarnando, suponhamos, em 2222, será que encontraremos ainda a floresta Amazônica de pé? Será que na região do Rio de Janeiro encontraremos um deserto, pela falta de chuvas? Será que reencarnaremos ainda no Brasil, que vem diminuindo os índices de natalidade? [34] Invocando o método de análise de Kardec, há que se observar se existem médiuns cujos Espíritos comunicantes minimizem ou ocultem esses problemas de exploração do homem pelo homem e os de natureza climática. O capítulo 19 de O livro dos Médiuns, que trata "Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas" certamente pode indicar caminhos para o entendimento desta questão. É urgente que nos organizemos coletivamente e participemos ativamente do trabalho por essas mudanças necessárias.

         Com o Espiritismo, aprendemos que o futuro será construído no presente. Que tipo de futuro temos construído, individual e coletivamente falando? Será um futuro tranquilo, bacana, um tempo de realizações positivas onde poderemos desenvolver plenamente nossas capacidades, ou será num mundo ainda repleto de problemas e ainda mais graves dos que aqueles que estamos enfrentando agora? Recordem-se que ainda paira sobre nossas cabeças a ameaça de um conflito nuclear por causa da Guerra contra a Ucrânia. Os desencarnados não assumirão nossas responsabilidades: a humanidade desencarnada, que é comprometida com o bem - porque existem aqueles que não o são tanto "aqui" quanto "lá" - certamente nos ajudarão com suas energias e inspirações, mas o trabalho fundamental está sob a responsabilidade daqueles que estão encarnados. Conosco estão as possibilidades materiais de lutarmos pela salvação material do planeta e ela, certamente, não se dará sob um ambiente de opressões e explorações.

         O preconceito racial e a homofobia, repugnantes sob qualquer ponto de vista, devem ser repudiados pelos espíritas. Somos todos Espíritos encarnados. Possuímos um corpo transitório e reencarnaremos em outras condições, adequadas e necessárias ao nosso progresso moral. Agir de maneira preconceituosa contra pessoas de outras etnias e contra pessoas de orientação LGBTQIA+ é faltar com o dever de fraternidade e respeito para com essas pessoas, além de cometer crime previsto no Código Penal, crime que deve ser denunciado e de maneira alguma tolerado. Além disso, com o conhecimento da reencarnação, pode-se descobrir no próximo - objeto do preconceito - um parente, um amigo ou um irmão de outras reencarnações. E, por nossa vez, muito provavelmente reencarnaremos em outras etnias e com gênero ou orientação sexual diversa da atual.

         O Espiritismo pode parecer a alguns como um chamamento individual à mudança e a transformação pessoais. Entretanto, ninguém é uma ilha e só nos transformamos verdadeiramente quando nos comprometemos com a transformação de todos, com a melhoria para todos. O próximo não é cenário para nossas realizações evolutivas, para fazermos selfies enquanto distribuimos a caridade material; o próximo é nosso irmão, nosso igual que, se porventura, encontra-se hoje em dificuldades, amanhã poderá ser a mão a nos socorrer. Não é alguém que deve permanecer abaixo de mim numa relação desigual de subordinação velada. É alguém que participará, ao nosso lado, da transformação do mundo num lugar acolhedor para quem se compromete com a coletividade e, por isso, pensa coletivamente. Só conseguiremos criar o reino de Deus em nós quando nos dispormos a torná-lo real para todos.



[1] KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 265.

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Idem, p. 267.

[5] Idem, p. 268.

[6] idem.

[7] Idem, p. 269.

[8] KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 1999, p. 107.

[9] Idem, p. 109.

[10] Idem.

[11] Ver: KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo, op. cit., p. 66 a 68 e KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 13.

[12] KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo, op. cit., p. 50.

[13] Idem, p. 128.

[14] KARDEC, Allan. “O Espiritismo é uma religião?”. Revista Espírita. Paris, Dezembro 1868, n° 12, p. 5.

[15] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2004, p. 28.

[16] Idem, p. 32.

[17] Idem, p. 36.

[18] KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 1996, p. 19.

[19] Idem, p. 19 e 20.

[20] KARDEC, Allan. O livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 1996, p. 292.

[21] KARDEC. A Gênese, op. cit., p. 20 e 21.

[22] Idem, p. 36, nota 1.

[23] Algumas cartas de Allan Kardec estão disponíveis para pesquisa no Projeto Allan Kardec, da Universidade Federal de Juiz de Fora, que está digitalizando e traduzindo o material. PROJETO ALLAN KARDEC. Disponível em: https://projetokardec.ufjf.br/ Último acesso em 24/3/22.

[24] Kardec. A Gênese, op. cit., p. 36, nota 1.

[25] Idem, p. 44 e 45.

[26] Idem, p. 23.

[27] BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. São Paulo: Edições Paulinas, 1990, p. 1376. João 14:26.

[28] Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, op. cit., p. 146.

[29] "Polos da Terra são atingidos por ondas de calor sem precedentes". Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Um-So-Planeta/noticia/2022/03/polos-da-terra-sao-atingidos-por-ondas-de-calor-sem-precedentes.html Último acesso em 24/3/22.

[30] "63% das áreas desmatadas na Amazônia viram pasto para o gado, indica relatório alemão". Disponível em: https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Sustentabilidade/noticia/2021/01/63-das-areas-desmatadas-na-amazonia-viram-pasto-para-o-gado-indica-relatorio-alemao.html Último acesso em 24/3/22.

[31] "As Mudanças Climáticas". Disponível em: https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_climaticas2/ Último acesso em 24/3/22.

[32] "Mais de 356.000 mortes em 2019 foram relacionadas ao calor". Disponível em: https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-08-20/mais-de-356000-mortes-em-2019-foram-relacionadas-ao-calor.html Último acesso em 24/3/22.

[33] "Mudança climática ameaça Índia a ter regiões inabitáveis". Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/mudanca-climatica-ameaca-india-a-ter-regioes-inabitaveis/ Último acesso em 24/3/22.

[34] IBGE. "Taxa Bruta de Natalidade por mil habitantes – Brasil – 2000 a 2015". Disponível em: https://brasilemsintese.ibge.gov.br/populacao/taxas-brutas-de-natalidade.html Último acesso em 24/3/22.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Guerras; Assassínio


Guerras; Assassínio, O Livro dos Espíritos, 3ª parte, cap. VI (Da Lei de Destruição), perguntas 742 a 751. Rio de Janeiro, 11 de Outubro de 2011.

“Se há tanta paz no azul que o céu abriga
e há tanto azul que tanto bem nos faz,
se há tanto azul e há tanto céu, me diga:
- Por que é que o Homem não encontra a Paz?...” [1]
Luna Fernandes
            Mais do que nunca, os seres humanos clamam pela paz! Ontem, como hoje, existiram anseios por alcançá-la. A paz é celebrada em eventos públicos, em discursos emocionados e até por governos de Nações. Estes, no entanto, desmentem-se, ao assumirem, muitas vezes, posições contraditórias, quando defendem a agressão e a violência pela guerra. Desmentem-se até quando, omissos, recusam-se a opinar a respeito de atrocidades que são cometidas contra outros seres humanos, quase sempre de etnias ou nações “mais fracas”, com menor capacidade econômica para resistirem. A guerra foi objeto de preocupação de Allan Kardec que, na parte dedicada às Leis Morais da vida, no capítulo da Lei de Destruição, abordou-a. Assim, na pergunta 742 o Codificador indaga
Que é o que impele o homem à guerra?
“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem - o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos freqüente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas, fazendo-a com humanidade, quando a sente necessária.” [2]
            É de se perceber que nossa inferioridade espiritual é responsável pela escolha que fazemos da guerra para resolvermos nossas desavenças, ou mesmo para adquirirmos poder econômico. O combustível da agressividade e o extravasar das paixões mais brutas encontram ambiente perfeito nesta situação. Recentemente, o Wikeleaks (que é uma organização sediada na Suécia que publica documentos vazados de governos ou empresas sobre assuntos sensíveis), publicou, em 2010, um vídeo onde soldados estadunidenses matam civis iraquianos de maneira banal. [3] Atiram em pessoas que se deslocavam em vans onde parecia haver uma criança dentro. Nota-se, no tom de voz do militar, todo um prazer bestial em fazer mal àquelas pessoas em situação desigual de força. Na estatística oficial de guerra, estas vítimas seriam descritas como “efeito colateral”.
            Quando se fala em horrores da guerra, recorda-se da Segunda Guerra Mundial e da figura de Adolf Hitler. Durante este período, a discriminação e a perseguição aos judeus foram implantadas na Europa ocupada pela Alemanha nazista. Países que simpatizavam com ela, ou que buscavam manterem-se neutros, eram pressionados a assumirem semelhante postura.
O método de matar era tema de discussão entre os nazistas. Otto Ohlendorf, comandante do Einsantzgruppen A, usava o método de fuzilamento, ao invés do tiro na nuca em que o soldado ficava perto da vítima, o que poderia dar margem a tentativas de reação de quem se pretendia matar. Essa obsessão de encontrar uma maneira de matar em massa e de forma impessoal acabou desembocando na utilização dos caminhões / câmaras de gás móveis. Estes eram adaptados de forma que o escapamento ficasse voltado para dentro da carroceria e o gás fosse produzido pelo funcionamento do motor. A asfixia demorava 15 minutos. Ao abrir as portas do caminhão, os mortos tinham a face desfigurada e os corpos cobertos de fezes. Os nazistas obrigavam os judeus a retirarem os corpos e os enterrarem. O método foi abandonado porque o número diário de mortos estava aquém da pretensão nazista de matar milhões de judeus. [4]
            Adotaram, então, as Câmaras de Gás. E procuravam fazer tudo com muita ordem.
Quando os judeus chegavam aos campos de extermínio, os nazistas mentiam-lhes sobre seu destino. As câmaras de gás eram disfarçadas de banheiros com chuveiros para desinfecção. Na ante-sala das câmaras, os alemães diziam aos judeus que estes iam tomar um banho. As vítimas se despiam e recebiam cabides numerados com a recomendação de não esquecer onde tinham deixado a roupa. Podiam receber também sabão. Muitas vezes eram obrigados a entrar com os braços levantados para ocupar menos espaço. Os guardas impediam conversas entre os presos do campo e os recém-chegados. Pretendiam que caminhassem sem pânico e em boa ordem para a câmara de gás. [5]
            Depois os corpos eram recolhidos por outros judeus que, trabalhando, tinham uma sobrevida maior.
            Para mim, soa muito estranho, pelo menos moralmente, a atitude do Estado judeu Israel em promover uma política de extermínio de um povo - o palestino -, a semelhança do que os judeus sofreram do nazismo. Israelenses que massacram palestinos, alemães que massacraram judeus (e Testemunhas de Jeová, ciganos, homossexuais, e outros) e estadunidenses que exterminam civis iraquianos e afegãos demonstram, com suas atitudes, o que os Espíritos codificadores disseram a Kardec: o direito do mais forte prevalecendo no estado de barbaria... E estamos falando de século XX (Segunda Guerra Mundial) e século XXI.
             Kardec, na pergunta 743, indaga aos Espíritos da Codificação se em algum dia a guerra desapareceria da face da Terra, ao que eles respondem positivamente, endossando que isso ocorreria “quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos.” [6] A justiça que decorre do entendimento do fazer aos outros aquilo que gostaríamos que os outros nos fizessem, de acordo com o que nos ensinou Jesus. Todos aqueles que reforçam o divisionismo entre as pessoas, que procuram hierarquizar pessoas, taxando alguns de inferiores desejam dominar, desejam poder. Na escala dos povos acontece o mesmo, ainda que isso não seja declarado explicitamente, como ocorria com o Nazismo. Temos que avisar aos ultra-belicosos de plantão que a Terra não tem fronteiras. A natureza (apelido de Deus) deu-nos recursos naturais sem estipular quem deveria ter mais ou menos. Segundo Mahatma Gandhi, “assim como o culto do patriotismo ensina que o homem deve morrer pela família, e a família pela pátria, assim, também, deve a pátria morrer, se necessário pelo mundo.” [7] Quando a pátria morrer pelo mundo, quando vivermos num mundo efetivamente sem fronteiras, como diz uma propaganda de operadora de telefonia móvel, então estaremos no caminho para vivermos como irmãos.
            Na questão 744 Kardec pergunta o “que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra” [8], ao que os Espíritos respondem: A liberdade e o progresso. Não satisfeito com a resposta, torna a perguntar
a) - Desde que a guerra deve ter por efeito produzir o advento da liberdade, como pode freqüentemente ter por objetivo e resultado a escravização?
“Escravização temporária, para esmagar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa.” [9]
            Às vezes gozamos de liberdade legal, amparada pela lei, sem dispormos dela no nosso mundo íntimo, vítimas que somos da escravização pelos nossos vícios, materiais ou morais. Hábitos ruins funcionam para nós como poderosas correntes que nos prendem ao círculo de reencarnações inferiores. A dor, que nos surge violenta, movimenta-nos, quando negligenciamos o aprendizado pelo amor espontaneamente. A guerra opera com a dor de maneira coletiva. Tira-nos do lugar, impele-nos para frente, pelos sofrimentos que provoca. As vítimas das guerras podem libertar-se da tirania do egoísmo, quando constroem redes de solidariedade para ampararem-se mutuamente. Podem libertar-se da preguiça, no esforço de reconstrução de suas próprias vidas destruídas. Se levarmos em conta que Deus não joga dados e que, portanto, ninguém sofre por acaso, se alguém sofre na guerra, não sofre por acaso. Seu sofrimento é a colheita de sofrimentos outros que andou semeando nos jardins dos outros, porque a vida nos devolve, agora ou depois, o que lhe damos. Ao resgatarmos nossos débitos passados, em expiações dolorosas, crescemos. Estamos aptos a novamente caminhar na direção de Deus.
Há outro aspecto do progresso que temos que levar em conta, o material. Alexander Fleming, trabalhando num hospital na França durante a Primeira Guerra Mundial, desenvolveu técnicas que melhoravam o tratamento de feridas infectadas. Em Agosto de 1928, quando saiu de férias
por esquecimento, deixou algumas placas com culturas de estafilococos sobre a mesa, em lugar de guardá-las na geladeira ou inutilizá-las, como seria natural.
Quando retornou ao trabalho, em setembro, observou que algumas das placas estavam contaminadas com mofo, fato que é relativamente freqüente. Colocou-as então, em uma bandeja para limpeza e esterilização com lisol. (...)
O fungo foi identificado como pertencente ao gênero Penicilium, donde deriva o nome de penicilina dado à substância por ele produzida. Fleming passou a empregá-la em seu laboratório para selecionar determinadas bactérias, eliminando das culturas as espécies sensíveis à sua ação.
 A descoberta de Fleming não despertou inicialmente maior interesse e não houve a preocupação em utilizá-la para fins terapêuticos em casos de infecção humana até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939.
 Em 1940, Sir Howard Florey e Ernst Chain, de Oxford, retomaram as pesquisas de Fleming e conseguiram produzir penicilina com fins terapêuticos em escala industrial, inaugurando uma nova era para a medicina - a era dos antibióticos. [10]
            Na questão 745 Kardec indaga aos Espíritos da Codificação o “que se deve pensar daquele que suscita a guerra para proveito seu”, ao que eles respondem: “grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.” [11] Segundo o historiador Luiz Mir, 80% dos crimes são de inspiração econômica.[12] Na guerra, atualmente, muitos ganham dinheiro. A indústria armamentista fatura alto, bem como a construção civil, no “esforço de reconstrução” dos países destruídos, além do sistema financeiro, através da concessão de empréstimos para estas obras. A invenção do terrorismo, após a queda do muro de Berlin e o fim da União Soviética, certamente serviu para que o mercado de armas aquecesse, após a Guerra Fria (que não foi nada fria em países de Terceiro Mundo). Nos conflitos que observamos no Oriente Médio, da década de 1990 até o presente, notamos o desvelado interesse no controle do petróleo, recurso natural que caminha a passos largos para o esgotamento, sendo ainda importante matriz energética no mundo, apesar de pesquisas voltadas para a utilização de água como combustível.
            Quase sempre, ao pensarmos em um “modelo de guerra” remetemo-nos à Segunda Guerra Mundial, pela sua grandeza de proporções. Segundo John Keegan, houve 20 milhões de mortes na Primeira Guerra e 50 milhões na Segunda. [13] Somente de judeus mortos, estima-se que tenham sido em torno de 6 milhões de almas. E nos lembramos de Adolf Hitler, colocando-o na categoria de primeiro culpado do combate que massacrou a tantos. Mas... Será que ele agiu sozinho? Será que seus contemporâneos alemães não se identificavam com os valores que ele defendia? Hitler fez a guerra sozinho? A Alemanha, ao final da guerra, podia ser considerada um país derrotado ou um país libertado? Na França ocupada pelos nazistas na Segunda Guerra (de Vichy), muita gente colaborou com o regime nazista e, depois da derrota alemã, com a França novamente livre, foi construída a imagem de que todos foram resistentes à ocupação nazista. No Brasil, no período de redemocratização após o Golpe Civil-Militar de 1964, as reconstruções das memórias colocaram, como defensores da democracia, elementos que anteriormente simpatizaram ou colaboravam com a direita golpista. Essas responsabilidades individuais, graduadas de acordo com o papel que cada um teve no conflito, serão levadas em conta pelo maior e mais perfeito tribunal de justiça que dispomos: nossa consciência, onde estão inscritas as leis de Deus. As nacionalidades, os grandes grupamentos humanos, pelos valores que compartilham, pelas atitudes que assumem ou deixam seus governantes assumirem, responderão perante a Lei Divina. A cada um segundo suas obras.
            Recordo-me da narrativa do Espírito André Luiz, em Nosso Lar, a respeito da maneira como observava os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, as nações agressoras não são consideradas inimigas, mas desordeiras, sendo necessário reprimir-lhes o desequilíbrio.
Observei, então, que as zonas superiores da vida se voltam em defesa justa, contra os empreendimentos da ignorância e da sombra, congregados para a anarquia e, conseqüentemente, para a destruição. Esclareceram-me os colegas de trabalho que, nos acontecimentos dessa natureza, os países agressores convertem-se, naturalmente, em núcleos poderosos de centralização das forças do mal. Sem se precatarem dos perigos imensos, esses povos, com exceção dos espíritos nobres e sábios que lhes integram os quadros de serviço, embriagam-se ao contacto dos elementos de perversão, que invocam das camadas sombrias. Coletividades operosas convertem-se em autômatos do crime. Legiões infernais precipitam-se sobre grandes oficinas do progresso comum, transformando-as em campos de perversidade e horror. Mas, enquanto os bandos escuros se apoderam da mente dos agressores, os agrupamentos espirituais da vida nobre movimentam-se em auxílio dos agredidos. [14]
            Kardec torna a indagar aos Espíritos se é crime aos olhos de Deus o assassínio, e eles respondem-lhe que sim, sendo mesmo um grande crime, uma vez que “aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão.” [15] Um Espírito deixa de ter a chance, na carne, de crescer espiritualmente. Deixa de lado uma programação de expiação ou provas que o faria tornar-se melhor. Mas como nada acontece por acaso, se a pessoa é vitimada, não está sendo injustiçada por Deus. No seu passado espiritual, muito provavelmente, fez vítimas. Ninguém nasce programado para ser assassinado, mas ninguém é assassinado por acaso. Aquele que assassina torna-se instrumento da Lei que faz com que o assassinado resgate erros de outras encarnações (quem sabe, até o de ter matado alguém). Mas o fato de tornar-se instrumento da lei não o isenta. “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” [16]
            A culpabilidade do assassínio é variável. Deus, segundo a resposta à pergunta 747, “julga mais pela intenção que pelo fato.” [17] Mesmo o Direito Penal distingue o homicídio doloso (quando existe a intenção explícita de matar) do homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Empunhar uma arma para tirar a vida de alguém é considerado de uma maneira e atropelar acidentalmente alguém (sem embriaguês ou desrespeito às leis de trânsito) é considerado de outra forma, tanto na lei humana, quanto na Lei Divina.
            Em caso de legítima defesa, segundo os Espíritos na pergunta 748, desculpa Deus o assassínio, sendo que os Espíritos observam que “desde que o agredido possa preservar sua vida, sem atentar contra a de seu agressor, deve fazê-lo.” [18] Durante a guerra, se constrangido pela força, o homem não tem culpa dos assassínios que cometa. Pela força podemos entender por ordem de seus superiores. Penso que ainda não é tranqüilo, para o pacifista, recusar-se a combater. As penalidades, acredito, variaram muito na história. Imagino que em alguns casos essa penalidade possa ter sido até a morte, quando não a prisão, como o caso de Cassius Clay, boxeador estadunidense, também conhecido como Muhammad Ali (porque convertido ao Islamismo), que se recusou a lutar na Guerra do Vietnã. Assumir o risco que implicam a opção de não matar é muito mais meritório que escolher a possibilidade de matar, aceitando uma convocação para alguma guerra.
            Kardec indaga aos Espíritos qual crime é mais condenável aos olhos de Deus, se o infanticídio ou o parricídio, ao que as inteligências codificadoras respondem que “ambos o são igualmente, porque todo crime é um crime.” [19]
            Por fim, na pergunta 751 temos
Como se explica que entre alguns povos, já adiantados sob o ponto de vista intelectual, o infanticídio seja um costume e esteja consagrado pela legislação?
“O desenvolvimento intelectual não implica a necessidade do bem. Um Espírito, superior em inteligência, pode ser mau. Isso se dá com aquele que muito tem vivido sem se melhorar: apenas sabe.” [20]
            De quais povos Kardec estaria se referindo? A pergunta não nos deixa claro. Ele e seus contemporâneos sabiam onde estava acontecendo isso. Além disso, penso que por dever de caridade, buscando amenizar culpas e, até mesmo, pensando no alcance que teria O Livro dos Espíritos, buscou não ser tão explícito. Segundo a historiadora Vivian da Silva Paulitsch, 
A percepção dentro da comunidade médica contemporânea, entretanto, era de que o infanticídio e o aborto estavam sendo praticados em um alarmante ritmo. (...) uma mudança ocorreu no tipo de mulher que costumavam dirigir-se ao aborto – da “garota seduzida” do começo do século XIX, para depois de 1880, a “mulher casada buscando o controle do tamanho da sua família”. [21]
            A autora refere-se à Europa do século XIX, de Kardec! Mas a pergunta permanece: Onde era realizado? Segundo a historiadora, “na primeira metade do século XIX, na Europa, países como Inglaterra, Alemanha e França possuíam leis cada vez mais rigorosas para as práticas de aborto e infanticídio (...)”. [22] Países considerados de vanguarda para a civilização, tanto na época de Kardec, quanto nos dias de hoje. Não foram nos estadunidenses que inventaram a bomba atômica e a lançaram no Japão? Não foram eles que usaram contra os vietnamitas do Norte o napalm, uma arma química que provoca queimaduras de até 5º grau (que atingiam músculos e até ossos)? Não foram eles que usaram (ainda usam?) balas de urânio empobrecido contra as populações do Iraque?
Segundo uma audição no Congresso da Comissão de Benefícios por Incapacidade de Veteranos, mais de meio milhão de veteranos sofrem de doenças não diagnosticadas, as quais podem ou não ser devidas à radiação. A doença da radiação é considerada por alguns investigadores como a principal causa da síndrome da Guerra do Golfo — uma doença que envolve o enfraquecimento do sistema imunitário que muitos veteranos da Guerra do Golfo têm relatado. [23]
                Todos esses seres humanos viveram muito, aprenderam bastante em matéria de tecnologia, mas não aprenderam a ser humanos! Enquanto vamos aprendendo a ser mais humanos, tenhamos em mente que
É o espírito de cooperação, não o de confronto, que faz o mundo girar. A maioria das pessoas passa a maior parte de seus dias em um espírito de companheirismo e busca por quase todos os meios evitar a discórdia e propagar divergências. [24]
            Temos que aprender a manter este espírito de cooperação que o historiador da guerra conseguiu captar da essência humana e levá-lo a agir quando injustiças sejam cometidas contra os mais fracos, bem como também vigiarmos e orarmos a fim de que os preconceitos de que ainda não nos despimos considerem normal pessoas serem machucadas por outras pessoas, que ainda não descobriram sua humanidade.


[1] FERNANDES, Luna. Se há tanta paz. Disponível em: http://www.marabmi.com/Paz Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p.351. Grifos meus.
[3] Vídeo: Wikileaks mostra como americano mata civis no Iraque. Disponível em: http://www.conversaafiada.com.br/video/2010/12/12/video-wikileaks-mostra-como-americano-mata-civis-no-iraque/ Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[4] OLIVEIRA, Marco Aurélio Gomes. Anti-semitismo e suas conseqüências. Disponível em: http://transformandomundo.blogspot.com/2008/07/o-anti-semitismo-e-suas-consequncias.html Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[5] Idem.
[6] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 351.
[7] Mahatma Gandhi. Disponível em: http://cadernoaquariano.blogspot.com/2011/04/mahatma-gandhi.html Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[8] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 351.
[9] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[10] RESENDE, Jofre M. FLEMING, O ACASO E A OBSERVAÇÃO. Disponível em: http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende/penicilina.htm Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[11] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[12] MIR, Luiz. Guerra Civil. São Paulo: Geração Editorial, 2004, p. 505.
[13] KEEGAN, John. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 80.
[14] XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Rio de Janeiro, FEB, 1996, p. 226. Disponível em: http://www.sej.org.br/livros/lar_br.pdf Último acesso em 6 de Outubro de 2011. Grifos meus.
[15] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[16] Mateus, 18:7.
[17] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[18] Idem.
[19] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 353.
[20] Idem.
[21] PAULITSCH, Vivian da Silva. Aborto e Infanticídio: Representações na arte do século XIX. Disponível em http://anpuhsp.org.br/downloads/CD%20XVII/ST%20XXVII/Vivian%20da%20Silva%20Paulitsch.pdf Última consulta em 6 de Outubro de 2011.
[22] Idem.
[23] WILLIAMS, John. O urânio e a guerra - Os efeitos das armas com urânio empobrecido usadas no Iraque. Disponível em http://resistir.info/iraque/uranium_p.html Último acesso em 6 de Outubro de 2011.
[24] KEEGAN, John. Op. cit., p. 492. Grifos meus.