terça-feira, 12 de setembro de 2017

Bem e mal sofrer

Bem e mal sofrer

Palestra apresentada no Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor em 12 de Setembro de 2017.

         A tradição budista conta que Krisha Gotami teve um filho e este morreu. Impregnada de dor, ia com o filho de casa em casa pedindo a todos um remédio. As pessoas diziam “Está louca. A criança está morta”. Encontrando-se com um camponês, este lhe diz que não teria o remédio para dar, mas conhecia um médico capaz de fazê-lo. “Vai ver o Buda”, disse-lhe. Encontrando-se com o iluminado, narra-lhe que seu filho brincava entre as flores e tropeçou numa serpente, que se enroscou em seu braço, ficando, por isso, pálido e silencioso. “Não posso deixar que ele deixe de brincar ou que deixe meu colo”, disse ao Buda. “Dá-me um remédio que cure meu filho!”, suplicou. “Sim, há uma coisa que pode curar teu filho e a ti”, informou-lhe o Buda.

Procura uma simples semente de mostarda preta, porém só deves receber de uma casa onde nunca tenha entrado a morte, onde não tenha ainda morrido pai, mãe, filho nem filha, nem irmão, nem irmã, nem escravo nem parente. [1]

         Aflita, Krisha Gotami corria de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas sentiam pena dela e lhe davam o que procurava. Porém, quando perguntava se já tinha morrido alguém naquela casa, respondiam-lhe: “Ah, poucos são os vivos e muitos os mortos! Não despertes a nossa dor!”[2] Agradecida, devolvia o grão de mostarda. Dirigindo-se a outra casa, recebia o grão de mostarda, mas, junto com ele a informação de que a morte também penetrara aquele lar, levando com ela um escravo. Assim, não encontrou uma casa onde não tivesse morrido alguém. Retorna, então, ao Buda e suplica-lhe pelo remédio, informando-lhe que não encontrara nenhuma casa onde a morte não houvesse penetrado. Responde-lhe, então, o Buda:

Minha irmã, procurando o que não podes encontrar, achaste o amargo bálsamo que eu queria dar-te. Sobre teu seio, o ser que amas dormiu hoje o sono da morte. Agora já sabes que todo mundo chora uma dor semelhante à tua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se concentrado num só. [3]

         Explica-lhe, então, que todos os que nascem morrem. Porém, a pessoa detentora de sabedoria e que conhece a Lei, não se perturbaria,

porque nem pelo pranto nem pelo desânimo obtém a paz, mas pelo contrário, isso tudo aviva as dores e os sofrimentos do corpo. A morte não faz caso de lamentações. Morre o homem, e seu destino está determinado por suas ações. Embora viva dez ou cem anos, acaba o homem por separar-se de seus parentes ao sair deste mundo. Quem deseja a paz da alma, deve arrancar de sua ferida a flecha do desgosto, da queixa, da lamentação. Feliz será aquele que consegue vencer a dor. Sepulta tu mesma o teu filho. [4]

         Krisha Gotami, então, compreende que fora egoísta em sua dor, uma vez que a morte era fenômeno comum a todos. Enterrando seu filho no bosque, trabalhou por arrancar, de si, a flecha do desgosto, da queixa e da lamentação. O Espírito Lacordaire, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” informa-nos que quando Jesus disse que os aflitos seriam bem aventurados e que o reino dos céus lhes pertenceria, não estava referindo-se aos sofredores de maneira geral, pois o sofrimento é comum a todo aquele que está mergulhado neste planeta, independente de sua condição social. Segundo o Espírito, “poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus”[5].

         O Espiritismo informa-nos que as aflições têm causas nesta e nas outras vidas. Muitos dos males que nos atingem são provocados por comportamentos e omissões que assumimos na existência atual. Se apreciamos as bebidas alcoólicas, seremos acometidos dos males do fígado; se fumamos, teremos problemas no trato respiratório; se não regramos nossa alimentação, fazendo uso em excesso de açúcar e sal, nos tornaremos diabéticos e hipertensos. Agora, se nascemos com alguma limitação física; se sofremos algum acidente que nos incapacite; se de hora para outra perdemos todos os nossos bens materiais; se nascemos pobres, passando por inumeráveis privações, estas, certamente, são aflições que tem sua origem em outras encarnações. Allan Kardec, no mesmo capítulo que estamos estudando (Bem aventurados os aflitos) informa-nos que os sofrimentos “são muitas vezes a consequência da falta cometida, isto é, o homem, pela ação de uma rigorosa justiça distributiva, sofre o que fez sofrer aos outros”[6]. A reencarnação, portanto, explica a Justiça de Deus. Sendo Justo e Bom, Deus não escolheria uns para ter uma vida repleta de facilidades em detrimento de outros que encontram a estrada repleta de obstáculos. Se um filho nosso nos pede um pão, algum de nós lhe daria uma pedra? E se nos pedisse um peixe, daríamos uma serpente? Ora, como disse Jesus, “Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem”.[7] Deus não trata seus filhos de maneira distinta, mas, pela reencarnação, permite que cada um receba de acordo com suas obras. De acordo com o filósofo espírita Léon Denis, “fundamentalmente considerada, a dor é uma lei de equilíbrio e educação”[8]. Numa mensagem intitulada “Em casa”, Emmanuel, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, nos diz que se ontem traímos a confiança de um companheiro, induzindo-o a destruição moral, “hoje guardamo-lo na condição do parente difícil, que nos pede sacrifício incessante”[9]. Se no passado colocamos o orgulho e a vaidade no peito de alguém que nos seguia os exemplos menos felizes, “hoje, partilhamos com ele, à feição de esposo despótico ou de filho-problema, o cálice amargo da redenção”[10]. Emmanuel ainda nos diz, agora no livro “Vida e Sexo”, que todo aquele, homem ou mulher, que se aproxima de alguém para aproveitar-se dos outros em relações sexuais irresponsáveis, sem compromisso, tratando-os como “coisas”, criando nessa pessoa expectativas falsas, é um violador de almas. Assume com as vítimas “a obrigação de restaurá-las, até o ponto em que as injuriou e prejudicou, ainda mesmo quando na conceituação incompleta do mundo essas criaturas tenham sido encontradas supostamente já prejudicadas ou injuriadas por alguém”[11]. E de que maneira vamos restaurar essas pessoas? Através dos laços familiares, pela reencarnação. Assim,

A jovem suave que hoje nos fascina, para a ligação afetiva, em muitos casos será talvez amanhã a mulher transformada, capaz de impor-nos dificuldades enormes para a consecução da felicidade; no entanto, essa mesma jovem suave foi, no passado – em existências já transcorridas –, a vítima de nós mesmos, quando lhe infligimos os golpes de nossa própria deslealdade ou inconsequência, convertendo-a na mulher temperamental ou infiel que nos cabe agora relevar e retificar. [12]

         Esse é o diferencial que a Doutrina Espírita nos oferece. A consciência das causas dos sofrimentos. Sabemos que não são por acaso ou por capricho e má vontade de Deus para conosco. Representam a colheita da nossa sementeira. Daí não haver sentido para a revolta e o desespero. O conhecimento espírita ajuda-nos a bem sofrer, como diz Lacordaire.

         Joanna de Ângelis informa-nos que

em alguns casos o sofrimento, em si mesmo, ainda é a melhor terapia para o progresso humano. Enquanto sofre, o homem menos se compromete, demorando-se em reflexão, de onde partem as operações de reequilíbrio. É comum a mudança de comportamento para pior, quando diminuem os fatores afligentes. Uma sede de comprometimento parece assaltar o indivíduo imaturo, que parte para futuras situações penosas, complicando os parcos recursos de que dispõe. Desse modo, a duração do sofrimento muito contribui para uma correta avaliação dos atos a que ele se deve entregar[13]

         Assim, para muitas criaturas humanas, o sofrimento constitui-se em um freio, que lhes impede maior comprometimento moral diante das Leis Eternas da vida. Adoecido, o homem que se portou mal, que foi cruel e perverso, tem oportunidade de refletir sobre sua conduta e existência. Aquele que esgotou suas energias nos vícios do álcool, das drogas, do sexo desregrado, preso a um leito de dor pode avaliar seu procedimento e os efeitos que ele teve para sua atual situação. A dor, portanto, constitui-se numa pedagoga valiosa, quando as lições do amor são recusadas pelo candidato à felicidade que se distrai e se desvia dos caminhos do bem. Recordem-se que nos Evangelhos não há referências de que Jesus haja curado a todos os doentes que o procuravam. Muitas dores ficaram, porque se constituíam em poderosos remédios para a alma. 

         O Espírito Irmão X, pelo lápis de Francisco Cândido Xavier, trouxe-nos um conto que ilustra muito bem essa questão. Conversando com seus apóstolos, Jesus assinala que havia sombras e moléstias por toda a parte, “como se a existência na Terra fosse uma corrente de águas viciadas”[14]. Porém, regenerando a fonte, o problema estaria solucionado. “Restaurado o espírito, em suas linhas de pureza, sublimam-se-lhe as manifestações”[15]. Pedro, no entanto, questiona o Mestre, indagando-lhe se ele não concorda que as enfermidades são flagelos para as criaturas. Pergunta, ainda, se eles curassem todas as doenças, proporcionando alívio aos que sofrem aflições no corpo, não instalariam, mais depressa, o reino de Deus. Outros companheiros de Jesus acompanham a opinião de Pedro, ao que Jesus informou-lhes que, a título de experiência, todos seriam curados antes da próxima pregação. No dia, mais de cem doentes foram curados. Entravam tristes e cabisbaixos no gabinete improvisado ao ar livre e voltavam felizes. Tão logo ressurgiam radiantes e sadios, Pedro os convidada ao banquete de verdade da pregação.

O Mestre, em breves instantes, falaria com respeito à beleza da Eternidade e à glória do Infinito; demonstraria o amor e a sabedoria do Pai e descortinaria horizontes divinos da renovação, desvendando segredos do Céu para que o povo traçasse luminoso caminho de elevação e aperfeiçoamento na Terra.
Os alegres beneficiados, contudo, se afastavam, céleres, entre frases apressadas de agradecimento e desculpa. Declaravam-se alguns ansiosamente esperados no ambiente doméstico e outros se afirmavam interessados em retomar certas ocupações vulgares, com urgência.
Com a cura do último feridento, a vasta margem do lago contava apenas com a presença do Senhor e dos doze aprendizes. [16]

Dirigindo-se a Pedro, Jesus disse-lhe:

Pedro, estuda a experiência e guarda a lição. Aliviemos a dor, mas não nos esqueçamos de que o sofrimento é criação do próprio homem, ajudando-o a esclarecer-se para a vida mais alta.
(...)
A carne enfermiça é remédio salvador para o espírito envenenado. Sem o bendito aguilhão da enfermidade corporal é quase impossível tanger o rebanho humano do lodaçal da Terra para as culminâncias do Paraíso. [17]

Muitos daqueles que estão presos às enfermidades voltariam, assim que pudessem, aos mesmos erros que cometiam antes, tão logo conseguissem a cura para o corpo. Em realidade, aprendemos que as enfermidades da alma manifestam-se no corpo doente. Como disse Irmão X no conto, utilizando-se da figura de Jesus, restaurando a pureza da fonte (do Espírito Imortal) o curso de água se tornaria límpido, e as manifestações do Espírito, não mais comprometido com o erro, se dariam em bases novas e renovadas. 

“O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem”[18] diz-nos, ainda, Lacordaire. Richard Simonetti fala-nos que aqueles que vivem reclamando, que se revoltam, que não se conformam e se rebelam “estão marcando passo. Suas dores não edificam nem depuram. Suas lágrimas são ácidas e amargas, gerando males não programados, amarguras desnecessárias, infelicidade voluntária”.[19] Ele nos diz que os desequilíbrios maiores que atingem as pessoas não decorrem dos erros do passado e sim da rebeldia do presente. “A dor maior decorre do fato de pretendermos recusar o sofrimento”[20]. Lacordaire nos diz, ainda, que

a prece é um apoio para a alma; contudo, não basta: é preciso tenha por base uma fé viva na bondade de Deus. Ele já muitas vezes vos disse que não coloca fardos pesados em ombros fracos. O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem. [21]

Note que a prece é apoio, não receita para a solução daquilo que se tem que encarar, forçosamente, para o nosso equilíbrio espiritual. Ainda em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo “Pedi e Obtereis”, Allan Kardec informa-nos que, de maneira geral, os homens só veem o presente. “Se o sofrimento é de utilidade para a sua felicidade futura, Deus o deixará sofrer, como o cirurgião deixa que o doente sofra as dores de uma operação que lhe trará a cura”[22]. O fim do sofrimento pode não ser alcançado pela prece, mas existe, sim, algo que se pedirmos, obteremos pela prece:

O que Deus lhe concederá sempre, se ele o pedir com confiança, é a coragem, a paciência, a resignação. Também lhe concederá os meios de se tirar por si mesmo das dificuldades, mediante ideias que lhe fará sugiram os bons espíritos, deixando-lhe dessa forma o mérito da ação. Ele assiste os que se ajudam a si mesmos (...). [23]

         Lacordaire, desenvolvendo seu raciocínio, diz-nos que o militar que não é mandado para a linha de fogo fica descontente, porque o repouso no campo não lhe faculta nenhuma possibilidade de ascensão de posto. Conclama-nos, então, a sermos como esse militar, não desejando repouso, que acabaria enervando nosso corpo e envenenando a alma. Paulo de Tarso, depois de ter se transformado ao contato com a mensagem cristã e de ter se constituído num grande propagandista do Evangelho, sofrendo toda a sorte de perseguições em nome de Jesus, diz, numa carta ao seu companheiro de ideal Timóteo, que “combateu o bom combate”[24]. Tinha consciência de que fez bom uso das possibilidades do tempo para a causa cristã, com isso, crescendo espiritualmente e resgatando, ainda naquela encarnação, muito do mal que praticara enquanto Saulo de Tarso, quando perseguidor dos cristãos. O modo como encaramos a vida determina o aproveitamento que teremos dela. Sofre mais, quanto mais longo se lhe afigura a duração do sofrimento.

Ora, aquele que a encare pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar. [25]

               Com o ponto de vista modificado, entendemos a brevidade da vida humana e da duração do sofrimento que estamos suportando. Assim, compreendendo-lhe a importância reparadora para o nosso reequilíbrio espiritual, aceitaremos ele sem revolta.

Alegrai-vos, quando Deus vos enviar para a luta. Não consiste esta no fogo da batalha, mas nos amargores da vida, onde, às vezes, de mais coragem se há mister do que num combate sangrento, porquanto não é raro que aquele que se mantém firme em presença do inimigo fraqueje nas tenazes de uma pena moral. [26]

           Bezerra de Menezes, Espírito, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, diz-nos que antes, os mártires do Cristianismo sofriam nos circos para demonstrar ao mundo a glória da mensagem cristã. “Antigamente, dolorosa renunciação era exigida aos companheiros do Mestre Nazareno, de fora para dentro; agora, contudo, é a luta renovadora do santuário íntimo para o mundo externo”[27]. Hoje o circo que nos aguarda o sacrifício está dentro de nós, conclamando-nos o sacrifício de nosso orgulho e egoísmo no cotidiano: em nossa casa, com o parente difícil; no local de trabalho, com colegas que nos querem prejudicar ou com chefes tiranos... João Batista, patrono do Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor, ao se referir a Jesus, disse que “é necessário que Ele cresça e que eu diminua”,[28] indicando-nos que os ideais de Jesus devem corporificar-se em nossas vidas, para que possamos dizer um dia, como Paulo de Tarso, que “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus”[29].

           Lacordaire acrescenta, ainda:

quando vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela, e, quando houverdes conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera, ou do desespero, dizei, de vós para convosco, cheio de justa satisfação: “Fui o mais forte”. [30]

A questão que muita gente pode colocar-nos é: como sobrepor-se ao sofrimento ou à contrariedade? Através da utilização dos conhecimentos que são oferecidos pela Doutrina Espírita. Joanna de Ângelis recomenda-nos a educação da mente e a disciplina da vontade como passos iniciais para acabarmos com as causas das aflições. “O recolhimento interior, mediante análise profunda dos recursos ao alcance, favorece o homem para que encontre os meios que fazem cessar o sofrimento”[31]. Suas indicações vão de encontro às propostas dos Espíritos Superiores que se comunicaram com Allan Kardec e que estão presentes em “O Livro dos Espíritos”. Na questão 919 Kardec indaga aos Espíritos “qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal”[32], ao que as Inteligências Superiores respondem: “Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.[33]” Só aquele que se conhece é capaz de reformar-se. Só aquele que se conhece é capaz de diagnosticar, em si, o que precisa melhorar. Nós somos os condutores e os construtores dos nossos destinos. Alguém tomaria um remédio prescrito por um médico que não o examinou? Não há perspectiva de evolução moral para nós se não tomarmos as rédeas dos nossos destinos e agirmos com consciência. Para isso, necessitamos conhecermo-nos. E isso só o fazemos se analisamos nossa conduta. Será que temos consciência de todos os defeitos que temos? Como escolher o remédio, se não sabemos a doença? Então, é urgente pensar-nos. Ainda em “O Livro dos Espíritos”, Kardec pergunta às Entidades Esclarecidas: “Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?[34], ao que elas respondem: “Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!”[35]. Mais adiante, na resposta à questão 911, os Espíritos Superiores acrescentam que muitas pessoas dizem que tem vontade, mas ela está apenas em seus lábios. “Quando o homem crê que não pode vencer as suas paixões, é que seu Espírito se compraz nelas, em consequência da sua inferioridade”[36]. Ou seja, educação da mente e disciplina da vontade são antídotos fundamentais para que não venhamos, novamente, a cometer erros que, caso concretizados, se constituirão em matrizes para sofrimentos futuros.

Lacordaire conclui sua mensagem proclamando: “Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso”[37]. Ou seja, vale à pena nos esforçarmos para levarmos a bom termo o sofrimento ou a dificuldade pela qual estejamos passando. É uma conta a menos a acertar e uma conquista valorosa para nós.



[1] “A semente de mostarda”. Disponível em: http://www.maisbelashistoriasbudistas.com/mostarda.htm Último acesso em 8 de Setembro de 2017.
[2] Idem.
[3] Idem.
[4] Idem. Grifos meus.
[5] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2004, p. 123.
[6] Idem, p. 115.
[7] Mateus 7:11.
[8] DENIS, Léon. O Problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 1999, p. 372.
[9] XAVIER, Francisco Cândido. “Em casa”. Disponível em: http://www.forumespirita.net/fe/reencarnacao/ninguem-foge-a-lei-da-reencarnacao/#.WbLfa7KGPcd Último acesso em 8 de Setembro de 2017.
[10] Idem.
[11] XAVIER, Francisco Cândido. Vida e Sexo. Rio de Janeiro: FEB, 1999, p. 83.
[12] Idem, p. 43.
[13] FRANCO, Divaldo Pereira. Plenitude. Salvador: LEAL, 1994, p. 42. Grifos meus.
[14] XAVIER, Francisco Cândido. Contos e Apólogos. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 32.
[15] Idem.
[16] Idem, p. 33.
[17] Idem, p. 33 e 34.
[18] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, op. cit., p. 123.
[19] SIMONETTI, Richard. A voz do monte. Rio de Janeiro: FEB, 2003, p. 21.
[20] Idem.
[21] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, op. cit., p. 123.
[22] Idem, p. 446.
[23] Idem.
[24] 2 Timóteo 4:7.
[25] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, op. cit., p. 120.
[26] Idem, p. 124.
[27] XAVIER, Francisco Cândido. “Código divino”. Disponível em:  http://bibliadocaminho.com/ocaminho/TXavieriano/Livros/Bcv/Bcv48.htm Último acesso em 8 de Setembro de 2017.
[28] João 3:30.
[29] Gálatas 2:20.
[30] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, op. cit., p. 124.
[31] FRANCO, Divaldo Pereira. Plenitude, op. cit., p. 43 e 50.
[32] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 423.
[33] Idem.
[34] Idem, p. 418.
[35] Idem.
[36] Idem.
[37] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, op. cit., p. 124.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Igualdade perante o túmulo

Palestra apresentada no Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor em 25 de Abril de 2017.
(O Livro dos Espíritos, perguntas 823 e 824)

O historiador francês Philippe Ariès escreveu um livro chamado “História da Morte no Ocidente”. Comentando esse trabalho, outro historiador, o estadunidense Robert Darnton, diz-nos que o enterro cristão, no início, inverteu a prática dos patrícios romanos, que eram enterrados em mausoléus individuais fora da cidade.

Os primeiros cristãos tinham uma crença de tipo mágico na eficácia dos enterros próximos às relíquias de santos e, dessa forma, davam preferência ao sepultamento nas igrejas situadas no centro das cidades. Durante um milênio, esse sepultamento foi basicamente coletivo. Os ricos e bem-nascidos eram colocados sob lajes do chão da igreja, as pessoas simples eram enterradas em valas no adro. Quando o lugar ficava lotado, os ossos eram transferidos para ossuários e carneiros em comum, onde eram empilhados e dispostos com um senso artístico macabro. [1]

Na Alta Idade Média (por volta do ano 470 até o ano 1000), a pessoa que estava prestes a desencarnar desempenhava um papel central na preparação do seu passamento. Naquela época, havia um rito prescrito para o que seria considerado uma boa morte. Assim, a arte de bem morrer seria um dos temas literários e iconográficos (ou seja, da produção de imagens) dos mais populares e difundidos no século XV (pelos anos 1400, já durante a Era Moderna).

 Basílica e Convento de Santo Domingos, em Lima, Peru. O crânio de San Martin de Porres dentro da Igreja. O restante do seu corpo está sepultado em outra parte do Convento. 
 Basílica e Convento de Santo Domingos, em Lima, Peru. Cada retângulo desse, uma pessoa enterrada. Ao fundo, os restos de Santa Rosa de Lima. Seu crânio está no altar da Igreja. 
 Basílica e Convento de Santo Domingos, em Lima, Peru. Onde está enterrado o restante do corpo de Santa Rosa de Lima. 
 Basília e Convento de São Francisco de Assis, em Lima, Peru. Catacumbas. 
 Basília e Convento de São Francisco de Assis, em Lima, Peru. Catacumbas.
 Basília e Convento de São Francisco de Assis, em Lima, Peru. Catacumbas.
 Basílica Menor e Convento de São Pedro, em Lima, Peru. A placa marca o local onde foi enterrado o coração do Conde de Lemos, Vice-Rei do Peru, colocado aí obedecendo a disposições testamentárias. 
Basílica Menor e Convento de São Pedro, em Lima, Peru. Caixas de ossos num altar lateral da igreja. 

A vida era muito frágil. As pessoas não viviam tanto como hoje em dia. Os perigos de doenças, guerras e fome eram muito mais presentes que na atualidade. O homem medieval e do início da Era Moderna tinha verdadeiro horror à morte súbita, porque ela retiraria dele a oportunidade de participar desse momento crítico. Não por acaso, quando um médico estava atendendo a algum doente e reconhecesse que o caso era delicado ele tinha como primeiro dever chamar um padre, para que a criatura não desencarnasse sem assistência religiosa. Além disso, o médico tinha a obrigação de avisar aos pacientes caso identificasse a mais remota possibilidade deles desencarnarem, a fim de que os doentes pudessem dispor de oportunidade e tempo de se prepararem para a morte, enfrentando-a de acordo com o cerimonial tradicional, no leito. De acordo com Darnton

A cena do leito de morte ocorria em público. Padres, médicos, parentes, amigos e até os transeuntes se apinhavam no aposento do moribundo. Numa “boa morte” ele avaliava sua vida, chamava e perdoava seus inimigos, abençoava seus filhos, arrependia-se de seus pecados e recebia os últimos sacramentos. [2]

         Variando conforme a época, condição social e lugar, os testamentos davam instruções “cuidadosamente detalhadas para o funeral e o luto, especificando a composição do cortejo fúnebre, o número de velas a serem levadas, o caráter do enterro e o número de missas a serem rezadas por sua alma”[3]. No Brasil, a historiadora Elene da Costa Oliveira, citando o trabalho do historiador João José Reis, observa que, no testamento, encontravam-se elementos da religião católica. Algo como “em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, Três pessoas e um só Deus verdadeiro”[4], seguindo-se a recomendação da alma para Deus: “Primeiramente encomendo minha alma à SS. Trindade, que criou; e rogo ao Padre Eterno, pela morte e paixão de seu unigênito filho, a queira receber, como recebeu a sua”[5]. A historiadora, analisando treze testamentos, verificou a quantidade de missas solicitadas por aqueles que se preparavam para a morte. O maior número que ela encontrou foi de 150 missas[6]. Não pensem que é um número muito elevado. Robert Darnton, em seu artigo, fala que alguns daqueles que faziam testamentos, pagavam “centenas ou milhares de missas a serem rezadas por eles em ocasiões especificadas, muitas vezes em caráter perpétuo”[7].

         O historiador estadunidense conta-nos, ainda, que 

No começo do século XVII, os funerais eram cerimônias elaboradas, principalmente, mas não exclusivamente, entre os ricos e bem nascidos. Uma longa procissão acompanhava o caixão desde a casa dos parentes até a igreja, percorrendo a cidade de acordo com um circuito predeterminado. Treze pobres carregavam, numa das mãos, archotes decorados com o brasão ou as iniciais do falecido e, na outra, o tecido que ganhavam dele como presente cerimonial. Padres e freiras em trajes de cerimônia, diretores de hospitais, bandos de órfãos pobres, companheiros de irmandades religiosas seguiam em fila, carregando archotes e velas, que iluminavam as ruas. Os sinos dobravam por toda a parte, e todo mundo sabia por quem, pois a morte incluía a exibição, a demonstração do status por uma coletividade, que utilizava a cerimônia para expressar sua ordem e a posição do falecido dentro dela[8]

No Brasil, Elene Oliveira encontrou um testamento onde eram descritos os gastos possíveis com um funeral. A banda que tocaria no funeral, os carregadores do caixão, os decoradores da casa (para o velório), o padre e o sacristão eram remunerados[9]. Ela conta, ainda, que os pobres participaram do cortejo fúnebre porque, muitas vezes, eram distribuídas esmolas deixadas, em testamento, por aquele que desencarnara. Muitos escravos, nestas ocasiões, adquiriam a liberdade, uma vez que seus senhores deixavam essa vontade expressa nos seus testamentos.

         Allan Kardec, na questão 823, indaga aos Espíritos Superiores “Donde nasce o desejo que o homem sente de perpetuar sua memória por meio de monumentos fúnebres?”[10], ao que eles respondem: “Último ato de orgulho”[11]. O homem medieval era muito religioso, sem dúvidas. Acontece, porém, que a religião tradicional incorporou elementos formalistas do judaísmo e, mesmo, do paganismo romano, fazendo com que o espírito – no sentido de essência – do Cristianismo, fosse abafado e colocado em segundo plano pela ritualística, pelo atendimento formal de determinado número de ações. O esforço por se levar uma vista justa, correta, foi deixado de lado porque se acreditava que poderiam chegar ao outro lado da vida – naquele momento, ao céu – se eles atendessem a um determinado número de rituais. A aproximação da hora da morte, certamente, fazia com que muita gente repensasse suas ações e tivesse atitudes sinceras de arrependimento e mudança. Porém, muita gente apegada aos protocolos da religião tradicional acreditava que, desobrigando-se daqueles rituais de acordo com o costume, estariam quites com Deus, como quem desejaria colocar a alma num alvejante poderoso – “Cloro” ou “Vanish” – para deixa-la pura. Daí a quantidade interminável de missas.

         Em certa ocasião, quando o Espírito André Luiz fazia sua estreia nos trabalhos assistenciais de Nosso Lar – ele conta-nos a experiência em seu famoso livro de mesmo nome – as equipes de socorro da colônia espiritual levaram, resgatados do Umbral (região intermediária, ainda muito próxima à Terra onde se demoram Espíritos sofredores e ignorantes) alguns desencarnados em condição de desequilíbrio para atendimento. Ele vê uma senhora e resolve ajuda-la. Dando corda para que ela falasse, a senhora afirma-lhe que foi mulher de muito bons costumes. Que teria feito muita caridade e que havia rezado muito, como sincera devota. Porém, depois de desencarnada, havia sido cercada por “espíritos diabólicos”, que a prenderam. Porém, não perdera a esperança de ser libertada porque, afinal, havia deixado dinheiro para que fossem celebradas missas mensais para seu descanso. Indagada por André Luiz pelas razões que a levaram a passar por difícil situação no além-túmulo, disse que, apesar de ter se esforçado por ser boa religiosa, ninguém estava livre de pecados. Possuía escravos que, de vez em quando, ela mandava aplicar corretivos. Segundo ela,

Não raro algum negro morria no tronco para escarmento geral; outras vezes, era obrigada a vender as mães cativas, separando-as dos filhos, por questões de harmonia doméstica. Nessas ocasiões, sentia morder-me a consciência, mas confessava-me todos os meses, quando o padre Amâncio visitava a fazenda e, depois da comunhão, estava livre dessas faltas veniais, porque, recebendo a absolvição no confessionário e ingerindo a sagrada partícula, estava novamente em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus[12]

         Para ela, não havia nada demais possuir escravos, uma vez que até os bispos os tinham. Disse, por último, que o padre ensinara-lhe que os africanos seriam nascidos apenas para servirem no cativeiro. Parece-me que as coisas não saíram, lá, muito bem como ela achava. Ela, como tantos outros, achava que a ritualística da religião, e não a mudança interior, era suficiente para limpar a alma e prepara-la para o ingresso na outra vida.

         Ainda há outro elemento a considerar. O desejo consignado em testamento de distribuir-se bens aos pobres, de se fazer doações à igrejas e irmandades, a libertação de cativos e, principalmente, a ritualística, suntuosidade e luxo dos funerais, como diz Darnton, era para marcar sua posição naquela sociedade e, por consequência, para contrastar com a dos outros, daqueles que não poderiam exibir tanto. Era para demonstrar status, poder.

Allan Kardec publicou “O Livro dos Espíritos” em 1857, no século XIX. Em finais do século XVIII (anos 1701 em diante), de acordo com Darnton, os administradores franceses passaram a considerar insalubre o costume de sepultamento dos mortos dentro de igrejas, proibindo-os. Os cemitérios passaram, então, a serem construídos nos limites das cidades. “O túmulo pessoal, encimado por uma pedra com uma inscrição biográfica, passou a ser visto como uma reserva inviolável do século XIX”[13]. Na cidade de Salvador, no Brasil, em 1836, a população não gostou muito dessa ideia. Entraria em vigor, ali, uma lei que proibia que fossem realizados enterros dentro ou ao lado das igrejas. Estes deveriam ser feitos no “Campo Santo”, nome dado ao cemitério construído por uma empresa privada, que teria o monopólio dos enterros por 30 anos. Munidos de alavancas, machados e ferros, populares destruíram o cemitério. O episódio ficou conhecido como “Cemiterada”.[14] Não por acaso, portanto, a pergunta de Kardec enfoca, especificamente, os monumentos fúnebres. Entretanto, o túmulo, no espetáculo de exibição pública de status, poder e riqueza, seria a “cereja do bolo”, a última demonstração, a culminância do orgulho. Allan Kardec desdobra a questão 823.

a) – Mas a suntuosidade dos monumentos fúnebres não é antes devida, as mais das vezes, aos parentes do defunto, que lhe querem honrar a memória, do que ao próprio defunto?
Orgulho dos parentes, desejosos de se glorificarem a si mesmos. Oh, sim, nem sempre é pelo morto que se fazem todas essas demonstrações. Elas são feitas por amor-próprio e para o mundo, bem como por ostentação de riqueza. Supões, porventura, que a lembrança de um ser querido dure menos no coração de um pobre, que não lhe pode colocar sobre o túmulo senão uma singela flor? Supões que o mármore salva do esquecimento aquele que na Terra foi inútil?[15]

         Os parentes de personalidades famosas – pelo dinheiro, pelo poder ou pelos dois – aproveitam-se da fama do sujeito para “tirar uma casquinha” da notoriedade do familiar. Provavelmente, exibiam-se como os responsáveis pela arte que decorava as sepulturas e pelo cultivo da memória do desencarnado, que lhe poderia trazer algum benefício como, por exemplo, se se tratasse de um escritor famoso ou músico conhecido, cuja produção cultural (livros, músicas) continuaria sendo consumida pelos contemporâneos, se não rendendo frutos financeiros, ao menos status. Além disso, a exuberância apresentada nos túmulos revelaria que o desencarnado, em vida, foi rico, e que seus familiares que lhe providenciaram a última morada do corpo ainda o são. As duas últimas frases da resposta dos Espíritos a Allan Kardec são preciosas. O local mais adequado para guardar-se a lembrança de alguém não é feito de mármore, bronze ou, mesmo, de ouro. É o coração humano, templo interior que representa a sentimentalidade e o afeto que nutrimos por alguém. Aí sim, a memória é imorredoura, porque baseada naquilo que a traça não rói e o tempo não consome: o amor verdadeiro. O mármore e os metais podem durar muito tempo mesmo. A intenção de quem escolhe esses materiais é essa mesmo. Entretanto, são feitos do elemento material. O tempo os consumirá. E, além disso, mármore e bronze não impedirão, como dizem os Espíritos, de fazer com que alguém que tenha sido inútil seja esquecido.

         Agora, façam o esforço de imaginar a situação daquele que ritualiza a sua morte até a culminância de mandar construir sua própria sepultura. Depreende-se, daí, que o sujeito parte de uma concepção de morte que a entende como o ato final de sua passagem pela vida, vindo, após isso, o nada, daí a necessidade de lutar contra o esquecimento para viver na memória dos outros. Também pode entendê-la como o momento de espera do juízo final, permanecendo, em última análise, ainda junto de elementos que lhe atestem a sua grandeza material e seu poder, na imagem da suntuosidade dos seus túmulos.  Imaginem a situação do Espírito. Quantos, nessas circunstâncias, ficam presos aos locais de sepultamento de seus corpos? Allan Kardec, em “O Céu e o Inferno”, num capítulo intitulado “O passamento” lembra-nos que

a causa principal da maior ou menor facilidade de desprendimento é o estado moral da alma. A afinidade entre o corpo e o períspirito é proporcional ao apego à matéria, que atinge o seu máximo no homem cujas preocupações dizem respeito exclusiva e unicamente à vida e gozos materiais. [16]

         Ficará preso ao local de sepultamento de seu corpo material porque, em realidade, é apegado ao seu corpo. A preocupação em construir um monumento de culto a ele é sintoma de apego à matéria, de ligação muito forte com a vida física. Seu corpo morrerá, mas ele não vai desencarnar. Além disso, há que se levar em conta a perturbação do Espírito que se segue ao fenômeno biológico da morte do corpo. No mesmo capítulo, Kardec nos traz algumas informações valiosas a respeito. Segundo ele, no instante da morte, a alma experimenta uma espécie de torpor que lhe paralisa momentaneamente as faculdades.

A perturbação pode, pois, ser considerada o estado normal no instante da morte e perdurar por tempo indeterminado, variando de algumas horas a alguns anos. À proporção que se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável à de um homem que desperta de profundo sono; as ideias são confusas, vagas, incertas; a vista apenas distingue como que através de um nevoeiro, mas pouco a pouco se aclara, desperta-se-lhe a memória e o conhecimento de si mesma. Bem diverso é, contudo, esse despertar; calmo, para uns, acorda-lhes sensações deliciosas; tétrico, aterrador e ansioso, para outros, é qual horrendo pesadelo. [17]

         A crise da morte, portanto, que é normal, varia de acordo com o grau de apego que o desencarnado possuía à sua vida física. Quanto menos ligado aos valores materiais da vida, mais rápido a sua tomada de consciência no mundo espiritual.

Os funerais, onde se reúne variado número de pessoas para o sepultamento do corpo material da pessoa que desencarna, podem se constituir em verdadeiros obstáculos à tranquilidade daquele que deixa a vida física. Os encarnados presentes, se não mantém postura adequada, de respeito e orações àquele por quem estão velando o corpo, podem afetar-lhe, negativamente, a tomada de consciência. No livro “Conduta Espírita”, psicografado pelo médium Waldo Vieira, André Luiz nos sugere que devemos calar “anedotário e galhofa em torno da pessoa desencarnada, tanto quanto cochichos impróprios ao pé do corpo inerte”[18]. Isso, infelizmente, é muito comum, e o próprio André Luiz, em outro livro seu, “Obreiros da Vida Eterna”, informa-nos sobre as consequências dessa atitude inadequada para o desencarnado. Acompanhando o velório do médium Dimas, fica sabendo que, o processo de desligamento do seu corpo físico já estava quase completo, mas era afetado pelos encarnados ali presentes. A mãe do médium, também desencarnada, que o amparava neste momento de transição, informa-nos que  seu filho era chamado ao cadáver “cada vez que os parentes se debruçam, em pranto, sobre os despojos”[19], o que prejudicava a velocidade do restabelecimento de suas faculdades. Para aliviá-lo, ela o induzia ao sono, mas os pensamentos dos presentes faziam com que seu sono fosse povoado de pesadelos. De que maneira?

As imagens contidas nas evocações das palestras incidem sobre a mente do desencarnado, mantido em repouso depois de rápido mergulho na contemplação dos fatos alusivos à existência finda. Não somente as imagens. Por vezes, nossos amigos presentes, fecundos nas conversações sem proveito, exumem, com tamanho calor, a lembrança de certos fatos, que trazem até aqui alguns dos protagonistas já desencarnados. [20]

         Ou seja, além dos pensamentos afetarem o equilíbrio daquele que desencarna, ainda tem o perigo dos presentes atraírem, para o velório, outros Espíritos, nem sempre equilibrados, afetando, ainda mais, de maneira negativa, o processo de desligamento do corpo físico. E André Luiz presenciou a ocorrência na sala onde ocorria o velório. Um dos presentes disse que Dimas presenciou um crime cometido por um chefe político da região interiorana onde morava. Descendo aos detalhes que levaram o político a assassinar um homem, informa que Dimas o socorreu a vítima, mas não denunciou o agressor. Por caridade ou por medo, podemos supor. Assim que terminou sua narrativa, eis que o antigo assassino, já desencarnado e em profundo desequilíbrio, entra no ambiente e aproxima-se do narrador, questionando-lhe: “Sou eu o assassino! Que quer você de mim? Por que me chama? É juiz?!”[21] Percebendo o cheiro de flores, o antigo assassino notou que estava em um velório e foi ver de quem se tratava. Ao reconhece-lo, chama por Dimas: “Socorre-me! Estou desesperado! Onde encontrarei minha vítima para suplicar-lhe o perdão de que necessito? Ajuda-me, ainda! Tem compaixão! Deves saber o que ignoro! Socorre-me, socorre-me!...”[22] Um dos Espíritos que lhe ajudavam no processo de desencarnação informa, então, à André Luiz que Dimas registrou a presença na forma de terrível pesadelo, recordando-se do fato relatado. Agora, vocês imaginem se a pessoa foi famosa, se teve poder, destaque social ou riqueza e desencarna. Sabemos todos que os sepultamentos dessas pessoas são muito procurados, às vezes por centenas de pessoas. Imaginem que boa parte delas cultiva essa confusão de pensamentos e tem, frente ao desencarnado famoso, atitudes muito parecidas com a que nos referimos, rememorando passagens nem sempre felizes daquelas pessoas, o que deve constituir-se em verdadeira tortura para o Espírito desencarnado. 

           Os Espíritos Superiores informam a Allan Kardec, nas questões 326 e 327, da segunda parte de “O Livro dos Espíritos”, que as honras e homenagens prestadas ao corpo físico que será sepultado não chamam muito a atenção daqueles desencarnados já livres das vaidades terrenas, mas alguns, que ainda conservam alguns prejuízos deste mundo, sentem grande satisfação com essas homenagens ou se aborrecem com o pouco caso que se lhes façam. Informa-nos, ainda, que muitos Espíritos assistem aos seus funerais, apesar de alguns deles, dada essa perturbação de que falamos, não perceberem, muito bem, o que se passa.

         Na questão 824 Kardec indaga: “Reprovais então, de modo absoluto, a pompa dos funerais?”[23] Ao que os Espíritos respondem: “Não; quando se tenha em vista honrar a memória de um homem de bem, é justo e de bom exemplo”[24]. O famoso escritor francês Victor Hugo desencarnou em 22 de Maio de 1885. Nas suas últimas vontades, constava seu desejo de doar 50 mil francos para os pobres e o de ter o seu corpo levado para o cemitério no carro funerário dos pobres[25].  “É preciso que alguém seja a favor dos vencidos”[26], escreveu em sua obra “Os Miseráveis”. E ele o foi. Defendeu a abolição da pena de morte, os direitos da classe trabalhadora e a mulher. Por nove dias, uma multidão de franceses velou seu corpo. Dois milhões de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre até o Panthéon, monumento aos heróis nacionais da França. Para cultivar a memória de homens como Victor Hugo, os Espíritos Superiores que respondem a Kardec concordam com o destaque emprestado ao funeral[27].

         Allan Kardec comenta que “o túmulo é o ponto de reunião de todos os homens. Aí terminam inelutavelmente todas as distinções humanas”[28]. Todos, pobres ou ricos, têm que deixar o corpo físico por ocasião da morte. O rico pode viver maior número de anos, por se alimentar melhor e por dispor de melhores hospitais, facilidades que a riqueza lhe oferece. Mas seu corpo não é eterno. O que fará com que as pessoas lembrem-se da nossa passagem no mundo é o tipo de conduta que tivermos durante nossa existência física. Seremos lembrados pelas nossas ações, boas ou ruins. Os funerais mais fantásticos, mais luxuosos e requintados não farão com que criaturas que levaram uma vida egoísta sejam lembradas. Que tipo de impressões estamos deixando nas pessoas? Estamos cultivando simpatias através da prática do bem? “É dando que se recebe”, já dizia a oração atribuída a Francisco de Assis. O que temos dado de nós para a vida? Quais as sementes que estamos dispersando pelos caminhos do mundo? Refletir sobre a morte é pensar sobre a vida que levamos. Os nossos tem sido os caminhos do Senhor? Onde está o nosso tesouro? Allan Kardec informa-nos que para trabalharmos pela nossa purificação, devemos reprimir nossas más tendências e dominar nossas paixões. Para tanto, devemos abrir mão “das vantagens imediatas em prol do futuro, visto como, para identificar-se com a vida espiritual, encaminhando para ela todas as aspirações e preferindo-a à vida terrena, não basta crer, mas compreender”[29]. Para o espírita, a vida futura é uma realidade que se desenrola, a todo o momento, diante de seus olhos, uma vez que os Espíritos, as almas dos homens que já deixaram o corpo, vêm nos informar da imortalidade e as consequências de nossas ações.



[1] DARNTON, Robert. “A história das mentalidades: o caso do olho errante”. In: O Beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 287.
[2] DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourette, Op. cit., p. 281.
[3] Idem.
[4] REIS, João José. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 92, citado por OLIVEIRA, Elene da Costa. “Os testamentos como preparação para a morte”. Disponível em:  http://www.abhr.org.br/plura/ojs/index.php/anais/article/viewFile/466/508 Último acesso em 25 de Abril de 2017, p. 4.
[5] Idem.
[6] OLIVEIRA, Elene da Costa. “Os testamentos como preparação para a morte”, op. cit., p. 6.
[7] DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourette, op. cit., p. 293.
[8] Idem. Grifos meus.
[9] OLIVEIRA, Elene da Costa. “Os testamentos como preparação para a morte”, op. cit., p. 7.
[10] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 381.
[11] Idem.
[12] XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Brasília: FEB, 2015, p. 195. Grifos meus.
[13] DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourette, op. cit., p. 287.
[14] FARIAS, Sheila de Castro. “Cemiterada”. In.: VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 128 a 131.
[15] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 382. Grifos meus.
[16] KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Rio de Janeiro: FEB, 1997, p. 169.
[17] Idem.
[18] VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. Rio de Janeiro: FEB, 2001, p. 126.
[19] XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da Vida Eterna. Rio de Janeiro: FEB, 1998, p. 218.
[20] Idem, p. 219.
[21] Idem.
[22] Idem.
[23] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 382.
[24] Idem.
[25] THOMAS, Henry; THOMAS, Dana Leel. “Victor Hugo”. In.: HUGO, Victor. São Paulo: Martin Claret, 2007, vol. 2, p. 617.
[26] HUGO, Victor. Os Miseráveis. São Paulo: Martin Claret, 2007, vol. 2, pág. 404.
[27] Veja: ALTMAN, Max. “Hoje na História: 1885 - Morre o escritor francês Victor Hugo”. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/12086/hoje+na+historia+1885+-+morre+o+escritor+frances+victor+hugo.shtml Último acesso em 24 de Abril de 2017. LOUREIRO, Monique. “França celebra 200 anos de nascimento de Victor Hugo”. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/cultura/020226_victorhugobg.shtml Último acesso em 24 de Abril de 2017. “EXÉQUIAS DE VICTOR HUGO”. Disponível em: http://www.paginaespirita.com.br/exequias_de_victor_hugo.htm Último acesso em 24 de Abril de 2017.
[28] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 382.
[29] KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, op. cit., p. 172.