quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Visão Espírita do Carnaval

Rio de Janeiro, 21 de Fevereiro de 2017.

Visão Espírita do Carnaval
(Palestra apresentada na Reunião Pública do Grupo de Caridade Deus, Luz e Amor, instituição espírita do bairro de Benfica, na cidade do Rio de Janeiro)

         Em 1994, a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira levou, à Sapucaí, um enredo sobre Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Na voz do saudoso cantor Jamelão, o samba-enredo começava assim: “Me leva que eu vou/ Sonho meu/ Atrás da verde e rosa/ Só não vai quem já morreu...” [1]. Por que só não vai quem já morreu? O que impede aqueles que desencarnaram de irem atrás da verde e rosa ou de qualquer outra escola de samba? Por que não poderiam ir “pular o Carnaval” nos blocos, nas festas de rua ou nos clubes e salões? Porque não possuem, mais, um corpo físico? Ora, isso não é problema. Não foi Jesus quem disse que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”? (Mt 6.21). Vale pra isso também. Allan Kardec, em “O Livro dos Espíritos”, estudando as recordações das existências corpóreas, diz que aos Espíritos vulgares (comuns, que não se destacam), são os que mais sentem satisfação em estarem no planeta Terra, entre os encarnados. Segundo ele, esses Espíritos

Conservam quase que as mesmas ideias, os mesmos gostos e as mesmas inclinações que tinham quando revestidos do invólucro corpóreo. Metem-se em nossas reuniões, negócios, divertimentos, nos quais tomam parte mais ou menos ativa, segundo os caracteres. Não podendo satisfazer às suas paixões, gozam na companhia dos que a elas se entregam e os excitam a cultivá-las. [2]

         Percebemos, então, que a morte não transforma a maneira de ser e de pensar de ninguém. Despertamos, no Mundo Espiritual, conforme vivemos aqui, com os mesmos gostos, as mesmas tendências e inclinações, as mesmas virtudes e defeitos. Seremos lá o que somos aqui. Dessa forma, aqueles de nós que, muito ligados, mental e emocionalmente, à vida material, aos seus prazeres e gozos, permaneceremos vinculados a ela, sem um corpo físico, intrometendo-nos nas atividades com as quais nos identificamos. Todos de nós que mantivermos, enquanto encarnados, nosso gosto pelas bebidas alcoólicas, pelo cigarro de tabaco ou de maconha, pela cocaína ou pelo crack, por calmantes ou estimulantes – também drogas – prescritos por médicos, sentiremos, quando desencarnados, necessidade dessas substâncias. Mas a dependência ou o vício não são, apenas, de natureza química. Se, enquanto encarnados, formos viciados em sexo, fofoqueiros, rancorosos, levaremos esses defeitos para o Mundo Espiritual. Em razão disso, porque muito ligados, ainda, à vida física, buscaremos a companhia dos encarnados que se entregam a todas essas práticas e, provavelmente, por ligação mental, vamos estimulá-los a que se entreguem, ainda mais, a realizarem aquilo que gostamos. Assim, aqueles Espíritos que, enquanto encarnados, gostavam do Carnaval e tudo relacionado à festa – o que procuraremos comentar ao longo desse estudo – buscarão a companhia dos encarnados que são como eles.

         Buscando o significado da palavra “Carnaval” num dicionário de etimologia (que estuda a origem e a evolução das palavras) lemos que ela vem do latim clássico carnem levare ou carnis levale, que significa na tradução literal “abstenção da carne”. Levale significaria “tirar”, “levar” ou “afastar”. Alguns estudiosos do assunto diriam que o segundo elemento da palavra seria formado, na realidade, pela palavra vale, que significa “adeus”, formando o significado de “adeus à carne”[3]. A explicação estaria relacionada ao fato de que o Carnaval é comemorado no período que antecede à quaresma pascoal, quando se deveria praticar a abstenção de carne, prática ligada aos rituais da Igreja Católica.

O Espírito Bezerra de Menezes, no livro “Nas fronteiras da Loucura”, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ditado pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, fala em “carne nada vale”, “cuja primeira sílaba de cada palavra compôs o verbete carnaval”[4]. Refere-se à postura daqueles que, participando dos abusos que são possíveis na festa, não respeitam o próprio corpo físico, instrumento precioso de realizações e crescimento espiritual.

A historiadora Rachel Soihet, num artigo publicado na Revista Tempo (do Departamento de História da UFF), analisa alguns estudos das ciências humanas sobre o Carnaval. O primeiro que ela aborda é o de Julio Caro Baroja. Para ele, a festa não teria uma origem pagã, ainda que, nele, permanecessem incluídas várias festas com essa origem e que também aí se destacassem os “valores pagãos da vida”, contrastando com o período de exaltação do sofrimento e do luto da quaresma. Entende que o Carnaval seria “filho dileto do cristianismo”, uma vez que a forma com que se apresenta desde a Idade Média europeia está ligada à ideia de quaresma. Para ele, “a alegria e os excessos do carnaval só tem sentido como catarse preparatória para justificar a entrada na quaresma”[5]. Assim,

a razão de tudo isso estaria numa busca do equilíbrio social, baseando-se num ou mais períodos de desequilíbrio aparente, durante os quais a sociedade se precipita de um extremo ao outro. Tese conservadora do carnaval como força estabilizadora, destinada à manutenção da ordem (...).[6]

         Mikhail Bakhtin, filósofo e pensador russo, pelo contrário,

remonta ao paganismo para explicar as origens desta festa, considerando-a inserida na cultura popular de vários milênios; para ele, é nítida a identificação do carnaval com as saturnais romanas, cujas tradições permaneceram vivas no carnaval da Idade Média. [7]

         Além disso, o autor diz que as festas religiosas na Idade Média possuíam um aspecto cômico, popular e público. Mesmo “as cerimônias e os ritos civis da vida cotidiana eram acompanhados pelo riso, quando os bufões e os “bobos” assistiam às funções do cerimonial sério e parodiavam seus atos” [8]. Criavam uma espécie de segundo mundo e uma segunda vida ao lado do mundo oficial, com seu tom sério. Esse filósofo tenta estabelecer uma relação desses fatos com um passado mais remoto. Segundo ele, nas etapas mais primitivas da história humana, quando não havia classes sociais nem Estado,

ocorria plena igualdade entre os aspectos sérios e cômicos da divindade, do mundo e do homem. Ambos eram sagrados e oficiais. (...) Com o regime de classes e do Estado, não há como manter direitos iguais para ambos os aspectos; modifica-se o sentido das formas cômicas, que adquirem um caráter não-oficial, transformando-se em formas fundamentais de expressão da sensação popular do mundo, da cultura popular. [9]

         Para ele, as festas oficiais, comandadas pelos donos do poder, serviam para reforçar e sancionar o regime em vigor. As diferenças da hierarquia eram destacadas intencionalmente, sendo a finalidade delas a consagração da desigualdade. “O carnaval, por outro lado, era sinônimo de liberação e abolição de hierarquias, privilégios, regras e tabus”[10].

         No ano de 1939, Chico Xavier recebeu duas mensagens sobre o Carnaval. A primeira delas pelo Espírito Humberto de Campos, em Março, que foi publicada no livro “Novas Mensagens”, editado pela FEB. A outra, em Julho de 1939, pelo Espírito Emmanuel. Nas duas mensagens os autores espirituais lastimam que os governantes apoiem a realização da festa. Não por acaso. Na década de 1930, o Carnaval foi institucionalizado pelo governo de Getúlio Vargas e o samba passou a simbolizar a música nacional. O governante queria pegar carona na popularidade do ritmo musical que, também, fortaleceu-se durante o período.

         Descrevendo o panorama espiritual da cidade do Rio de Janeiro durante o período do Carnaval, Manoel Philomeno de Miranda fala-nos em “densas nuvens psíquicas de baixo teor vibratório que encobriam a cidade”[11]. Segundo ele,

as mentes, em torpe comércio de interesses subalternos, haviam produzido uma psicosfera pestilenta, na qual se nutriam vibriões psíquicos, formas-pensamento de mistura com entidades perversas, viciadas e dependentes, em espetáculo pandemônico, deprimente.[12]

         Formas-pensamento são criações mentais. Quando pensamos, nossos pensamentos criam formas que são mais ou menos duráveis, conforme o nosso empenho em alimentá-las, ou seja, ficarmos pensando direto, durante muito tempo naquilo. Vibriões psíquicos são semelhantes a micróbios físicos e resultam da viciação mental e/ou emocional da consciência, em atitudes ou pensamentos desequilibrados. Essas nuvens psíquicas descritas pelo Espírito são o resultado dos pensamentos viciosos dos encarnados somados ao dos desencarnados que lhes compartiam a experiência no Carnaval. Manoel Philomeno de Miranda diz-nos que “as duas populações – a física e a espiritual, em perfeita sintonia – misturavam-se, sustentando-se”[13]. Lembram-se do que falou Kardec? Os Espíritos ligados à vida material, apegados aos seus prazeres, sentem falta deles e procuram encarnados que possuam as mesmas tendências e os mesmos gostos que eles para incitá-los a buscar os prazeres que sentem falta.

O ambiente espiritual era tão ruim e a quantidade de desencarnados participando da festa era tão grande que Manoel Philomeno de Miranda assim descreve:

A multidão de desencarnados, que se misturava à mole humana em excitação dos sentidos físicos, dominava a paisagem sombria das avenidas, ruas e praças feericamente iluminadas, mas cujas luzes não venciam a psicosfera carregada de vibrações de baixo teor. Parecia que as milhares de lâmpadas coloridas apenas bruxuleavam na noite, como ocorre quando desabam fortes tempestades.
Os grupos de mascarados eram acolitados por frenéticas massa de seres espirituais voluptuosos, que se entregavam a desmandos e orgias lamentáveis, inconcebíveis do ponto de vista terreno.
Outros, compostos de verdugos que não disfarçavam as intenções, buscavam as vítimas em potencial para alijá-las do equilíbrio, dando início a processos nefandos de obsessões demoradas. [14]

            O ambiente espiritual era tão denso e tão pesado que o autor espiritual, para nos fazer entender o que via, comparou-o a uma noite de chuva quando vemos, muito mal, as lâmpadas dos postes. Para além dos Espíritos que, apegados aos prazeres da vida material, buscavam os foliões para tentarem desfrutar, com eles, destes prazeres, temos outros Espíritos que, mal intencionados, buscavam aproximar-se das pessoas para prejudica-las, retirando-lhes o equilíbrio, a fim de darem início a processos de natureza obsessiva. O desequilíbrio de um instante pode comprometer-nos seriamente. Quantos cometem crimes porque não souberam controlar-se? Quantos matam ou espancam porque não tiveram um pouco mais de paciência? Nossas ações, por simples que nos possam parecer em dado momento, podem gerar efeitos duradouros para nós e para nossas eventuais vítimas que não nos perdoem.

         Por que os Espíritos maus investem contra nós? Allan Kardec, na pergunta 465 indaga aos Espíritos que colaboraram na elaboração de “O Livro dos Espíritos”:

465. Com que fim os Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal?
“Para que sofrais como eles sofrem”.
a) – E isso lhes diminui os sofrimentos?
“Não; mas fazem-no por inveja, por não poderem suportar que haja seres felizes.”
b) – De que natureza é o sofrimento que procuram infligir aos outros?
“Os que resultam de ser de ordem inferior a criatura e de estar afastada de Deus.”
466. Por que permite Deus que Espíritos nos excitem ao mal?
Os Espíritos imperfeitos são instrumentos próprios a pôr em prova a fé e a constância dos homens na prática do bem. Como Espírito que és, tens que progredir na ciência do infinito. Daí o passares pelas provas do mal, para chegares ao bem. A nossa missão consiste em te colocarmos no bom caminho. Desde que sobre ti atuam influências más, é que as atrais, desejando o mal; porquanto os Espíritos inferiores correm a te auxiliar no mal, logo que desejes praticá-lo. Só quando queiras o mal, podem eles ajudar-te para a prática do mal. Se fores propenso ao assassínio, terás em torno de ti uma nuvem de Espíritos a te alimentarem no íntimo esse pendor. Mas, outros te cercarão, esforçando-se por te influenciarem para o bem, o que restabelece o equilíbrio da balança e te deixa senhor dos teus atos.” [15]

         Além disso, Manoel Philomeno de Miranda fala-nos que muitos foliões que se vestem de forma grotesca e assustadora foram obter inspiração para suas fantasias e máscaras

em visitas a regiões inferiores do Além, onde encontraram larga cópia de deformidades e fantasias do horror de que padeciam os seus habitantes em punição redentora, a que se arrojavam espontaneamente.
As incursões aos sítios de desespero e loucura são muito comuns pelos homens que se vinculam aos ali residentes pelos fios invisíveis do pensamento, em razão das preferências que colhem e dos prazeres que se facultam no mundo íntimo. [16]

         Mais uma vez, onde está o nosso tesouro, estará o nosso coração. Allan Kardec, em “O Livro dos Espíritos” estuda a “Emancipação da alma”. Pergunta, então, aos Espíritos nobres se, durante o sono, a alma permanece repousando junto ao corpo físico, ao que eles respondem que

Não, o Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos. [17]    
  
         Assim, através do sono, pelos sonhos, estamos em relação com os Espíritos com os quais simpatizamos, com os quais temos afinidades. Quando somos bons e temos interesse real e compromisso efetivo com nosso crescimento espiritual, quando dormimos, vamos encontrar-nos com os Bons Espíritos, superiores a nós, que nos levam para reuniões onde estudamos e, na medida de nossas possibilidades, ajudamos-lhes em algumas atividades que desenvolvem. Por outro lado, se levamos a vida “na flauta”, descompromissados com nosso próximo, vivendo egoisticamente apenas para nossos prazeres e satisfações materiais, vamos, quando dormirmos, entrar em contato com os Espíritos que tenham os mesmos gostos e os mesmos defeitos que nós. Assim, se formos viciados em bebidas, drogas ou sexo, estaremos na companhia daqueles Espíritos que alimentam os mesmos vícios.

         Ainda sobre as fantasias, o autor espiritual nos conta que alguns deles,

que usam hoje imitações dos trajes antigos, são as próprias personagens que retornam ao proscênio do mundo, falidos lamentavelmente, imitando com carinho e paixão a situação que indignificaram quando a exerciam. Muitos nobres que enlouqueceram na ociosidade, agora meditam em profundas frustrações que os tornam insatisfeitos; monarcas que vulgarizaram a investidura com que mergulharam no mundo para servir, repetem os textos do drama da vida, em situações ridículas, amarfanhados; religiosos que corromperam os altos compromissos, ora estão crucificados nos madeiros invisíveis dos problemas íntimos que os amarguram; vencedores que se não venceram, neste momento revestem-se de não esquecidas indumentárias, servindo de bufos para as multidões que os aplaudem e criticam, que os invejam e perseguem com os seus preconceitos não menos nefastos; burgueses frívolos que expiam sob duras injunções morais o tempo perdido... [18]

         Deus a ninguém esquece e seus trabalhadores do Bem estão vigilantes enquanto, muitas vezes, nós não estamos. Manoel Philomeno de Miranda conta-nos que os Bons Espíritos, interessados no nosso progresso espiritual, montam postos de atendimento para encarnados e desencarnados em necessidade nesses dias tumultuosos. Segundo ele, existe um posto central, que fica localizado

em praça arborizada, no coração da grande metrópole, com diversos subpostos espalhados em pontos diferentes, estrategicamente mais próximos dos lugares reservados aos grandes desfiles e às mais expressivas aglomerações de carnavalescos. [19]

         O local é o Campo de Santana, no Centro da cidade e o posto tem a direção espiritual de Bezerra de Menezes. Assim, onde haja aglomerações de foliões, estarão, a postos, os trabalhadores do bem no outro plano da vida para socorrer-lhes. Muitos dos Espíritos que aí colaboravam eram ligados a familiares que estavam, ainda, no corpo físico, interessados em auxiliá-los, como também a todos os outros que precisassem. O autor espiritual nos conta que muitos Espíritos, em estado lastimável, davam-se conta, durante o calor da festa,

da inutilidade dos caprichos que sustentava, chorando copiosamente, em arrependimentos sinceros, inesperados. Cansados da busca fútil, despertavam para outros valores, recebendo imediato auxílio, desde que, onde se encontram as necessidades reais, logo surge o amparo próprio distendido em atitude socorrista. [20]

Muitos buscam a festa para que possam esquecer-se dos seus problemas e desafios que, ao final, na quarta-feira de cinzas, estarão lá, esperando-os, da mesma maneira e, talvez, até agravados pelas atitudes insanas que podem ser tomadas durante o período. Encarnados e desencarnados, vinculados que estamos aos erros de muitas encarnações, dos quais temos dificuldades de nos libertar, não sofreremos para sempre. Bezerra de Menezes diz-nos que “saturados pelo sofrimento e cansados das experiências inditosas, o homem, por fim, regenerar-se-á ao influxo da própria dor, e buscará sôfrego fruir o amor que lhe lenificará as íntimas inspirações da alma”.[21]  Ou seja, nos cansaremos de fugir de nós mesmos, dos nossos problemas, e, os encararemos com valor, com propósitos de mudança de vida. A Doutrina Espírita ajuda-nos, enormemente nesse processo, esclarecendo-nos que somos Espíritos imortais, vivendo uma experiência temporária no corpo de carne. As dores e sofrimentos que eventualmente encaremos são instrumentos de resgate de nossos erros do passado e ferramentas de crescimento para a melhoria do nosso futuro. Não estamos sozinhos. Através da prece, podemos estabelecer relações com os Bons Espíritos que vem ao nosso socorro inspirar-nos bons pensamentos e boas resoluções, fortalecendo-nos para as lutas do dia a dia. O exercício do bem fará com que atraiamos a companhia desses Bons Espíritos, afastando-nos, por consequência, dos que nos querem o mal.

No período do Carnaval que se aproxima, que evitemos o tumulto da festa e utilizemos o tempo disponível para descanso do corpo, bem como para estudos e reflexões que possam alimentar a alma nossa alma de conhecimentos novos. Que possamos orar para aqueles que, encarnados e desencarnados, estejam vinculados, ainda, aos festejos. Assim, seremos úteis aos Bons Espíritos e os ajudaremos em suas atividades nesse período tumultuoso que, um dia, o deixará de ser. Quando espiritualizar-nos, quando deixarmos de lado o exagero da bebida, dos vícios de qualquer natureza e equilibrarmos nossas emoções, todas as nossas celebrações e festas terão outro caráter: o de uma alegria pura e sadia, o de uma confraternização de almas que não desejam explorar-se, mutuamente, pelo contrário, que se querem bem e que pretendem compartir a felicidade.


[2]KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, p. 190. (comentário da pergunta 317). Grifos meus.
[3] Disponível em: http://www.dicionarioetimologico.com.br/carnaval/ Último acesso em 17 de Fevereiro de 2017.
[4] FRANCO, Divaldo P. Nas Fronteiras da Loucura. Salvador: LEAL, p. 69.
[5] SOIHET, Rachel. “Reflexões sobre o carnaval na historiografia – algumas abordagens”. Disponível em: http://www.historia.uff.br/tempo/artigos_livres/artg7-8.pdf Último acesso em 18 de Fevereiro de 2017, p. 3.
[6] Idem.
[7] Idem, p. 5.
[8] Idem, p. 6.
[9] Idem.
[10] Idem, p. 7.
[11] FRANCO, Divaldo. Nas Fronteiras da Loucura, op. cit., p. 25.
[12] Idem, p. 26.
[13] Idem.
[14] Idem, p. 67.
[15] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 248. Grifos meus.
[16] FRANCO, Divaldo. Nas Fronteiras da Loucura, op. cit., p. 68.
[17] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, op. cit., p. 221. Pergunta 401. Grifos do autor.
[18] FRANCO, Divaldo. Nas Fronteiras da Loucura, op. cit., p. 149.
[19] Idem, p. 69.
[20] Idem, p. 127 e 128.
[21] Idem, p. 72.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Lançamento do Livro "Imprensa Espírita na cidade do Rio de Janeiro: Propaganda, Doutrina e Jornalismo (1880 - 1950)"


Dia: 14 de Agosto de 2015.

Horário: 19 horas. 

Local: Moinho Arte & Café. Rua São Clemente nº. 24, loja B, Botafogo. Rio de Janeiro - RJ.
http://www.moinhoartecafe.com.br/


Preço do livro: R$: 50,00.


RESUMO:

O Livro investiga a atuação de espíritas na imprensa, por meio da criação e manutenção de periódicos e por meio da publicação de artigos em série ou via manutenção de colunas fixas nos grandes jornais diários na cidade do Rio de Janeiro, entre 1880 e 1950. A pesquisa evidencia o envolvimento de indivíduos, grupos e instituições espíritas em diferentes projetos editoriais criados por espíritas, a disputa travada pela preferência dos adeptos do Espiritismo, procurando avaliar seus objetivos, articulações e alianças, assim como as motivações para a atuação espírita na imprensa. Analisa, também, suas expectativas e concepções de imprensa, bem como procura desvendar as tensões em torno da ocupação de cargos em periódicos e entidades representativas. A partir da imprensa, reconstitui diferentes concepções sobre a Doutrina Espírita, defendidas e vividas pelos sujeitos sociais naquele momento histórico, recuperando embates e conflitos que marcaram a busca pela hegemonia de uma leitura do Espiritismo. Por fim, explora desdobramentos da atuação de espíritas no jornalismo, principalmente a tentativa de organização de seus jornalistas e a reorientação nos projetos editorias e gráficos.

Depois do lançamento, o livro será comercializado (autografado pelo autor) através da internet. Os interessados deverão, no formulário de contato (localizado no lado direito do blog, logo abaixo da imagem do livro), deixar nomeendereço com CEP e email para contato ou mandar essas informações para imprensaespirita@gmail.com . 

Evento no Facebook: 
https://www.facebook.com/events/403274293210900/ 

Curiosidade: O livro, originalmente um trabalho acadêmico para que seu autor, Marco Aurélio G. de Oliveira obtivesse o título de Mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense, será lançado, "por coincidência", exatamente um ano após a defesa da dissertação, realizada em 14 de Agosto de 2014. Na ocasião, a banca, composta pelas Prof. Dr.ª. Laura Antunes Maciel (UFF - Orientadora), Prof. Dr.ª Juniele Rabelo de Almeida (UFF - Arguidora) e Prof. Dr.ª Maria Letícia Corrêa (UERJ - Arguidora), recomendou a publicação do trabalho.

Visite o blog: http://imprensaespirita.blogspot.com.br/ 


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Lenhadores de Sonhos



            Quer descobrir um lugar mágico em sua casa para ter ideias? “Vá tomar banho!” Não! Não estou lhe ofendendo. O chuveiro é inspirador. Poderia falar muita coisa sobre isso mas, hoje, li uma excelente reflexão sobre isso do amigo Marco Antonio, pelo Facebook. Mas... Por que estou falando isso? Depois de ler um comentário/desabafo da amiga Carol Mallagoli Engel, também no mesmo site, me veio à cabeça uma expressão que tomei contato nesse ambiente virtual: “Lenhador de Sonhos”. E fiquei pensando, enquanto tomava banho, como seria essa figura.

            O Lenhador de Sonhos, para mim, é alguém que já teve o seu sonho cortado por outro Lenhador de Sonhos. Penso, também, que ele só age com nosso consentimento. É como um vampiro, que só entra na casa de alguém se convidado.

Mas, caberia perguntar, por que alguns se deixam vitimar por ele? Porque desacreditaram de si mesmo. Porque desacreditaram nos valores morais que fazem com que a vida seja melhor vivida, uma vez que estes são capazes de promover uma atmosfera de harmonia. De que valores falo? Na , em Deus, na vida ou no futuro; no Amor, fraterno, filial, afetivo, pátrio... De todo tipo; na Caridade, não naquela falsa caridade que deseja demarcar hierarquias entre as pessoas. Refiro-me à Caridade que irmana as pessoas, que enxerga no próximo como um ser humano que precisa ser respeitado. São valores religiosos ou filosófico-morais. São a essência das relações humanas sadias.

            Por que o Lenhador de Sonhos age assim? Por que se esforçam em colocar por terra os Sonhos das pessoas? Na pergunta 465 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec trava um diálogo com os Espíritos que pode nos ajudar a elucidar a questão. Ele indaga, aos Espíritos Superiores, com que objetivo os Espíritos Inferiores tentam induzir-nos ao mal. E eles respondem que estes o fazem para que soframos como eles sofrem. Mas isso lhes diminuiria o sofrimento, torna Kardec a perguntar, ao que as Entidades Luminosas dizem que não, e que estes Espíritos Inferiores fazem isso porque não podem suportar que haja seres mais felizes que eles. SENTEM INVEJA. O Lenhador de Sonhos, que já cedeu ao arrastamento de outro Lenhador, busca derrubar os Sonhos dos outros por inveja. Não deseja que os outros alcancem o que ele não conseguiu: os Sonhos concretizados. Em algum momento de sua trajetória, frustrou-se de tal forma a lidar com algum fracasso que desistiu. Ao desistir, cedeu aos imperativos de algum Lenhador de Sonhos. Enlouqueceu com a dor? Quem sabe...

            “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, disse Fernando Pessoa. Somos, por natureza, sonhadores. Sonhamos sonhos realizáveis ou utópicos. Mas mesmo aqueles de natureza utópicas tem sua função. A utopia é como o horizonte. Andamos dez passos, ele se afasta outro tanto de nós. Caminhamos vinte e ele, contudo, não deixa de se afastar. Nunca alcançamos. Mas serve para isso. NOS FAZ ANDAR, nos lembra Eduardo Galeano.

            Os Lenhadores de Sonho, no entanto, não estão mortos por dentro. No mundo íntimo, que tomam como porão, existe uma luz, existe algo que faz com que não percam a essência humana. Por muito que sufoquem, por muitas camadas de maldade que depositem em cima, existe algo de bom. Amam. Alguma coisa, mas amam. Todos os grandes Lenhadores de Sonhos da História, que espalharam maldades e sofrimentos pelo mundo, amavam alguém ou alguma coisa. E é esse amor, essência divina e humana, porque presente em todos, pode ser a redenção dos Lenhadores de Sonhos. Lá no fundo, parafraseando o Teatro Mágico, eles sentem que são um tanto bem maior que os maus sentimentos em que estão mergulhados. Se acreditarem, podem mudar. É por admitir, em mim, a possibilidade de ter sido, também, um Lenhador de Sonho, traço essas linhas. É por enxergar traços dessa bondade, por não negar a humanidade dos Lenhadores de Sonho, que escrevo essas linhas. É para retribuir a fé que alguém já teve em mim.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Um presente de Deus


 "Não sei se o mundo é bom
Mas ele está melhor
desde que você chegou
E perguntou:
 Tem lugar pra mim?" 
(Nando Reis - Espatódea)

           Confesso que não era muito familiarizado no trato com as crianças, de maneira geral. A Evangelização na instituição espírita me ajudou demais nisso. Certo domingo de 1999, provavelmente no final de Fevereiro ou no início de Março, jogava futebol numa praça próxima de casa. Meu time perdeu, fiquei de fora do jogo. Havia muita gente para jogar ainda. Ficaria um bom tempo esperando minha vez novamente. Lembrei-me, então, que no Centro estava recomeçando a Evangelização, em seu segundo ano, agora com maior número de crianças. Sessenta, se não me falhe a memória. No ano anterior foram 6 ou 7... Grande diferença! Visitei. As amigas Evangelizadoras não estavam, ainda, adaptadas à realidade nova. Fiquei para ajudar. Estou até hoje.
            Notei, com o tempo, que desenvolver a amorosidade com os evangelizandos me facilitava sobremaneira a prática da Evangelização, além de torna-la mais humana, próxima à realidade das crianças e mesmo da proposta de amor formulada por Jesus. Neste esforço, contei com dois reforços de peso, a meu ver (e em ordem de “chegada” em minha vida): Antônio Gonçalves e Paulo Freire. Com eles, aprendi a externar essa amorosidade necessária no trato com as criaturas humanas. Passei a amar as crianças.
            A partir do serviço de Evangelização, passei a agasalhar, no íntimo, a vontade de ser pai. E ser pai de uma menina. Sempre me cativou a meiguice delas, ainda que algumas de nossas meninas externassem-na junto com alguma agressividade, a qual, lamentavelmente, estavam acostumadas.
            Eis que no dia 10 de Maio deste ano recebo uma notícia que mudou toda minha vida... Serei pai! Na hora, desnorteado, caminhei pela casa. Minha cabeça girava como um redemoinho. E de uma menina! Coração descompassado de um misto de alegria e angústia, pelo novo desafio que se desenhava: a paternidade à distância. Amigos, não foi fácil! O início, os dias imediatos... Que digo! Até bem pouco tempo, meu coração andava oprimido com isso. Comecei a ficar tranquilo na tarde do dia que estava programada a cesariana, dia 25 de Julho. Assim, nesta data, minha vida ficou mais feliz. De Deus recebi uma flor que me deixou a vida mais bonita. À semelhança do Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, amo uma florzinha que está longe. Chama-se Jovita, nome escolhido pela mãe que quer dizer “energia”. Em Outubro, com a graça de Deus, a terei nos braços, lá no seu país. 
            A Deus, agradeço a benção da paternidade, rogando-lhe forças para desempenhá-la nobremente, a despeito dos desafios que a vida nos coloca. Amor a Jovita não faltará. Meu coração é dela. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Um grande amigo

            Como é difícil falar de um amigo. Como não esquecer alguma qualidade sua? Como priorizar, nas lembranças que se organizam, aqueles eventos mais marcantes. Sempre dá medo de deixarmos algo de fora. Mas vamos falar dele com aquilo que nossa memória recupera de momento.
            Eu o conheci num jardim, no bairro de Inhaúma, na cidade do Rio de Janeiro, em Janeiro de 2000. O mundo, como muitos esperavam, não acabara. Para mim, começava um mundo de emoções, de alegrias e, porque parte da experiência humana, algumas angústias e tristezas. Eu o conheci criança. Recém-nascido quase. “Esse é o mais espertinho. Leve-o contigo”, disse-me a pessoa que o apresentou-me. Confesso que me encantei por aquele ainda frágil amigo. Telefonei para minha casa e falei com minha mãe. Moravam comigo outros quatro amigos, a saber: Bem-Hur, Minie, Shaiane e Violeta. Perguntei à minha mãe se haveria a possibilidade de acolhermos mais um em nossa casa, ao que ela deixou a decisão em minhas mãos. Isso ela fazia quando não queria assumir a responsabilidade da escolha, mas ao mesmo tempo sabedora que eu faria a opção positiva. Meu amigo me acompanhou, no ônibus 711 (Rio Comprido – Rocha Miranda), até minha casa, agora nossa casa. Cabia em minhas mãos. Chorava, angustiado. Notei que era elétrico, agitado.
            Como faz a alegria de uma casa uma criança, mesmo que essa criança não seja da espécie humana. Batizado como “Popó” por meu pai, em homenagem ao lutador de boxe do momento, rapidamente ele fez a festa da casa. Bagunceiro que ele só! Cresceu amigo de uma poodle, brincavam muito mesmo. Rapidamente ele ficou muito maior que ela. Filho de uma linda vira-lata marrom, peluda, com um pitbull que não conheci.
            Criamos cinco cachorros na marra. Comiam restos de comida conseguida num restaurante próximo de casa. As condições financeiras não eram boas. A maioria dos nossos animais morreu por doenças evitáveis, que a vacinação pouparia. Popó foi o único animal que as circunstâncias (financeiras, momentâneas) ajudavam. Quando adoecia (e não foram poucas vezes), graças a Deus, sempre havia alguma grana para socorrer-lhe.
            Popó cresceu, crescemos juntos. Ele em tamanho, eu em admiração e respeito pelos animais. Quantas brincadeiras! Imaginem a força de um pitbull com tamanho maior por conta do cruzamento com um animal maior. “Luta livre”, corridas... E para passear na rua? Às vezes eu tinha a sensação que ele levava-me para passear, e não o contrário.
            Popó era a sombra de minha mãe. Aonde ela ia, ele ia atrás. Era algo parecido com a relação Terra-Lua. Quando ele cochilava e ela saia de perto, era até engraçado vê-lo procurando-a pela casa até encontra-la. E quando chegávamos da rua? Uma festa avassaladora! Quando minha mãe passou por algumas internações hospitalares, ele ficava no quintal, olhando para a rua, esperando-a. Entrávamos eu e meu pai em casa e ele nada. Apenas para comer. Depois tornava a sair.
            As doenças foram desafiadoras. Escapou de um envenenamento. Ouvi, na SUIPA, um belo sermão do veterinário sobre o problema que isso causa e dos riscos que meu amigo correu. Ressalto que nunca coloquei veneno na casa, mas nem todos em meu lar avaliavam os riscos. Em todo caso, a partir daí, este mal foi definitivamente banido.
            Sinistro foi quando ele contraiu Leptospirose! Dependia da carona de conhecidos para levar meu amigo na SUIPA. O tratamento era diário. Soro lento, com medicações. Veterinários e auxiliares de enfermagem, ao tocarem no Popó o faziam com luvas. Vi o risco que eu corria e pensei comigo mesmo: “Eu não vou pegar essa doença, de jeito nenhum!” E continuei. Superada a primeira semana, receitaram-lhe Benzetacil. E como aplicar injeções? Aprendi. Apliquei a primeira. Popó, que não reclamou de nenhuma dor até aquele momento sentou-se de dor! “Estou ferrado”, pensei! Ainda tenho que aplicar-lhe mais 29 injeções de 0,5 ml durante um mês! E assim foi. No horário das injeções, notava a angústia nos seus olhos, mas nunca mais reclamou. E vencemos a Leptospirose, com a graça de Deus.
            Tive anos difíceis entre 2005 e 2009 no que respeita a doenças em familiares. Descuidei de uma das vacinas de meu amigo (a de 2009) e eis que, em 2010, para meu desespero, ele contraiu a temível Cinomose! O mundo caiu na cabeça. Popó andava arrastando o traseiro no chão. Tinha dificuldades de urinar. Na internet pesquisei uma veterinária. Liguei e ela veio. Receitou-lhe Cinoglobulin (encontrável em lojas vinculadas a clínicas veterinárias. Encontrei no Gato Xadrez, em São Cristóvão) e uma medicação para o fígado que não me recordo o nome. Eis que se verificam melhoras. O cachorro começou a andar novamente. Fiquei maravilhado. Mas, uma semana depois, os sintomas retornam... Liguei para a veterinária e ela, pasmem, disse-me que era normal ele ter, novamente, dificuldades de andar (mesmo depois de ter apresentado melhoras) e que eu deveria fazer-lhe massagens... Pesquisei, novamente, na internet e eis que encontrei um veterinário de uma clínica veterinária de Higienópolis (Veterinária Rio, tel.: 2270-5039) que vinha em casa. Dr. Gustavo veio, examinou-lhe e acrescentou o Organoneurocerebral, além da repetição do Cinoglobulin. Foi sincero ao afirmar que o quadro era difícil. No entanto tentamos. E eis que fomos compensados pelo esforço. Com a graça de Deus, Popó voltou a andar. Ficou com sequelas neurológicas. Seu equilíbrio já não era mais o mesmo mas, mesmo assim, conseguia andar bem. O ano de 2010 teve esse momento de angústia superado. Recordo-me que começou a apresentar os sintomas da doença um pouco depois da vacinação anual da Raiva, promovida pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Preocupei-me com isso porque li, pela imprensa (e ouvi relatos) de que a vacina estava afetando os animais. Estariam desenvolvendo sintomas que, a princípio, julguei muito parecidos com o que apresentou Popó, principalmente o “descadeiramento”. Recentemente (Dezembro de 2011) ouvi relatos de que a vacinação, igualmente, causou problemas em alguns animais, chegando a provocar óbitos.
            Meu amigo em 2011 estava com 11 anos de vida. Uma vida feliz, alegre, cheia de desafios vencidos. Mas tinha contra ele o tempo. E quem pode contra o tempo? Era um idoso com alma juvenil. Os cães envelhecem mas parecem não perder o espírito infantil. Podemos notar certa jovialidade de alma (se me permitem) apesar do corpo cansado. E os efeitos do tempo não esperaram. Popó, eventualmente, vomitava. Reparamos que isso parecia ocorrer quando fazia suas refeições e bebia água. Começamos a nos precaver. Quando colocávamos comida, retirávamos a água por um tempo. Notamos que ele começou a acordar na madrugada para urinar. Acostumei-me a levantar-me todas as noites entre as 2 e as 4 horas da manhã para abrir-lhe a porta de casa para que se aliviasse. Não fizemos a leitura dos sintomas.
            Eis que chega o calvário de nosso amigo. Certa noite, notei-o agitado, indo de um lado para outro. Angustiado mesmo. Abria-lhe a porta, ele andava pelo quintal, rodava, rodava, às vezes urinava e depois voltava. Assim que entrava manifestava vontade de sair novamente. Ao dia seguinte, entrei em contato com o Dr. Gustavo que veio examinar-lhe. Ao tocar na região dos rins, notou que provocou dor em Popó. Os sintomas que apresentava (vômitos eventuais) poderiam ser sinal de complicações renais. Colheu sangue para análise. No dia seguinte a notícia: os índices de uréia e creatinina estavam altíssimos. No segundo e último exame (dia 26/10/2011) que fez, tinha 177,0 de uréia (normal 21,0 – 60,0) e 4,3 de creatinina (normal 0,5 – 1,5), além da ALT/TGP em 592,0 (normal 21,0 – 102,0). E mesmo assim continuou comendo. Fizemos três dias de soroterapia. Baixaram pouco os índices. Uma ultrassonografia abdominal foi reveladora. Meu amigo tinha duas lesões renais, uma em cada rim. Eram sugestivas de câncer. Um punção do líquido de uma delas foi feita e eis que recebi a triste notícia: era câncer. Não havia muito a fazer. Apenas cuidados paliativos. E o fizemos.
            Popó durante um mês comeu frango e peixe (uma vez), com arroz. De vez em quando vomitou. Sai do consultório com Ranitidina (para o estômago) prescrita, além de uma vitamina (Metacell Pet), ambas que ele tomou até o fim. Os vômitos aumentaram. Aumentamos a dose da Ranitidina (depois de consultar Dr. Gustavo). Eis que no dia 1° de Dezembro meu amigo acorda na madrugada novamente angustiado, um pouco parecido com o que ocorrera no final de Outubro. Na manhã daquela quinta-feira ele manifestou dor. Foi prescrito Dorless (tramadol, medicamento a base de ópio). Não adiantou. Foi associada outra medicação, anti-inflamatória. Não adiantou. As suas dores nos cortavam o coração. Nosso amigo não conseguia mais descansar. Tinha breves períodos de sono. Quando acordava, queixava-se. Liguei para o veterinário. Ele prescreveu aumentar a dose do Dorless. Ao invés de 2 comprimidos de 12 e 12 horas, passaria a tomar 3 comprimidos de 6 em 6 horas. Notei que estava adiando o inadiável.  Meu amigo partiria em breve. A eutanásia, que já vinha na minha pauta desde a notícia do câncer, surgiu com força agora. Durante o mês de Novembro tentei preparar o ânimo de minha mãe para o passamento de Popó, chamando-lhe a atenção para sua idade avançada e a gravidade da doença. Na manhã de sábado, dia 3 de Dezembro, optamos pela eutanásia. Notávamos sua dor aumentando. Nosso amigo, que diante de 30 doses de 0,5 ml de benzetacil não se queixara, agora estava reclamando de sua dor sem parar.
            Leva-lo para a clínica foi doloroso. Chorei pelo meu amigo como se fosse um parente. Que digo! Às vezes os animais são mais próximos que muitos parentes e vizinhos. Deixei meu amigo anestesiado e sai, não antes de abraçá-lo e o beijar. Agora sei que, onde está (se é que já não reencarnou) está melhor. Sem dores. O veterinário disse-me que cães em situações desse tipo às vezes não duram nem uma semana. Popó resistiu um mês!
            Que onde nosso amigo estiver, que receba nossas melhores vibrações de amor e carinho. Espero um dia reencontrá-lo. Por que não?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Guerras; Assassínio


Guerras; Assassínio, O Livro dos Espíritos, 3ª parte, cap. VI (Da Lei de Destruição), perguntas 742 a 751. Rio de Janeiro, 11 de Outubro de 2011.

“Se há tanta paz no azul que o céu abriga
e há tanto azul que tanto bem nos faz,
se há tanto azul e há tanto céu, me diga:
- Por que é que o Homem não encontra a Paz?...” [1]
Luna Fernandes
            Mais do que nunca, os seres humanos clamam pela paz! Ontem, como hoje, existiram anseios por alcançá-la. A paz é celebrada em eventos públicos, em discursos emocionados e até por governos de Nações. Estes, no entanto, desmentem-se, ao assumirem, muitas vezes, posições contraditórias, quando defendem a agressão e a violência pela guerra. Desmentem-se até quando, omissos, recusam-se a opinar a respeito de atrocidades que são cometidas contra outros seres humanos, quase sempre de etnias ou nações “mais fracas”, com menor capacidade econômica para resistirem. A guerra foi objeto de preocupação de Allan Kardec que, na parte dedicada às Leis Morais da vida, no capítulo da Lei de Destruição, abordou-a. Assim, na pergunta 742 o Codificador indaga
Que é o que impele o homem à guerra?
“Predominância da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem - o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal. À medida que o homem progride, menos freqüente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas, fazendo-a com humanidade, quando a sente necessária.” [2]
            É de se perceber que nossa inferioridade espiritual é responsável pela escolha que fazemos da guerra para resolvermos nossas desavenças, ou mesmo para adquirirmos poder econômico. O combustível da agressividade e o extravasar das paixões mais brutas encontram ambiente perfeito nesta situação. Recentemente, o Wikeleaks (que é uma organização sediada na Suécia que publica documentos vazados de governos ou empresas sobre assuntos sensíveis), publicou, em 2010, um vídeo onde soldados estadunidenses matam civis iraquianos de maneira banal. [3] Atiram em pessoas que se deslocavam em vans onde parecia haver uma criança dentro. Nota-se, no tom de voz do militar, todo um prazer bestial em fazer mal àquelas pessoas em situação desigual de força. Na estatística oficial de guerra, estas vítimas seriam descritas como “efeito colateral”.
            Quando se fala em horrores da guerra, recorda-se da Segunda Guerra Mundial e da figura de Adolf Hitler. Durante este período, a discriminação e a perseguição aos judeus foram implantadas na Europa ocupada pela Alemanha nazista. Países que simpatizavam com ela, ou que buscavam manterem-se neutros, eram pressionados a assumirem semelhante postura.
O método de matar era tema de discussão entre os nazistas. Otto Ohlendorf, comandante do Einsantzgruppen A, usava o método de fuzilamento, ao invés do tiro na nuca em que o soldado ficava perto da vítima, o que poderia dar margem a tentativas de reação de quem se pretendia matar. Essa obsessão de encontrar uma maneira de matar em massa e de forma impessoal acabou desembocando na utilização dos caminhões / câmaras de gás móveis. Estes eram adaptados de forma que o escapamento ficasse voltado para dentro da carroceria e o gás fosse produzido pelo funcionamento do motor. A asfixia demorava 15 minutos. Ao abrir as portas do caminhão, os mortos tinham a face desfigurada e os corpos cobertos de fezes. Os nazistas obrigavam os judeus a retirarem os corpos e os enterrarem. O método foi abandonado porque o número diário de mortos estava aquém da pretensão nazista de matar milhões de judeus. [4]
            Adotaram, então, as Câmaras de Gás. E procuravam fazer tudo com muita ordem.
Quando os judeus chegavam aos campos de extermínio, os nazistas mentiam-lhes sobre seu destino. As câmaras de gás eram disfarçadas de banheiros com chuveiros para desinfecção. Na ante-sala das câmaras, os alemães diziam aos judeus que estes iam tomar um banho. As vítimas se despiam e recebiam cabides numerados com a recomendação de não esquecer onde tinham deixado a roupa. Podiam receber também sabão. Muitas vezes eram obrigados a entrar com os braços levantados para ocupar menos espaço. Os guardas impediam conversas entre os presos do campo e os recém-chegados. Pretendiam que caminhassem sem pânico e em boa ordem para a câmara de gás. [5]
            Depois os corpos eram recolhidos por outros judeus que, trabalhando, tinham uma sobrevida maior.
            Para mim, soa muito estranho, pelo menos moralmente, a atitude do Estado judeu Israel em promover uma política de extermínio de um povo - o palestino -, a semelhança do que os judeus sofreram do nazismo. Israelenses que massacram palestinos, alemães que massacraram judeus (e Testemunhas de Jeová, ciganos, homossexuais, e outros) e estadunidenses que exterminam civis iraquianos e afegãos demonstram, com suas atitudes, o que os Espíritos codificadores disseram a Kardec: o direito do mais forte prevalecendo no estado de barbaria... E estamos falando de século XX (Segunda Guerra Mundial) e século XXI.
             Kardec, na pergunta 743, indaga aos Espíritos da Codificação se em algum dia a guerra desapareceria da face da Terra, ao que eles respondem positivamente, endossando que isso ocorreria “quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos.” [6] A justiça que decorre do entendimento do fazer aos outros aquilo que gostaríamos que os outros nos fizessem, de acordo com o que nos ensinou Jesus. Todos aqueles que reforçam o divisionismo entre as pessoas, que procuram hierarquizar pessoas, taxando alguns de inferiores desejam dominar, desejam poder. Na escala dos povos acontece o mesmo, ainda que isso não seja declarado explicitamente, como ocorria com o Nazismo. Temos que avisar aos ultra-belicosos de plantão que a Terra não tem fronteiras. A natureza (apelido de Deus) deu-nos recursos naturais sem estipular quem deveria ter mais ou menos. Segundo Mahatma Gandhi, “assim como o culto do patriotismo ensina que o homem deve morrer pela família, e a família pela pátria, assim, também, deve a pátria morrer, se necessário pelo mundo.” [7] Quando a pátria morrer pelo mundo, quando vivermos num mundo efetivamente sem fronteiras, como diz uma propaganda de operadora de telefonia móvel, então estaremos no caminho para vivermos como irmãos.
            Na questão 744 Kardec pergunta o “que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra” [8], ao que os Espíritos respondem: A liberdade e o progresso. Não satisfeito com a resposta, torna a perguntar
a) - Desde que a guerra deve ter por efeito produzir o advento da liberdade, como pode freqüentemente ter por objetivo e resultado a escravização?
“Escravização temporária, para esmagar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa.” [9]
            Às vezes gozamos de liberdade legal, amparada pela lei, sem dispormos dela no nosso mundo íntimo, vítimas que somos da escravização pelos nossos vícios, materiais ou morais. Hábitos ruins funcionam para nós como poderosas correntes que nos prendem ao círculo de reencarnações inferiores. A dor, que nos surge violenta, movimenta-nos, quando negligenciamos o aprendizado pelo amor espontaneamente. A guerra opera com a dor de maneira coletiva. Tira-nos do lugar, impele-nos para frente, pelos sofrimentos que provoca. As vítimas das guerras podem libertar-se da tirania do egoísmo, quando constroem redes de solidariedade para ampararem-se mutuamente. Podem libertar-se da preguiça, no esforço de reconstrução de suas próprias vidas destruídas. Se levarmos em conta que Deus não joga dados e que, portanto, ninguém sofre por acaso, se alguém sofre na guerra, não sofre por acaso. Seu sofrimento é a colheita de sofrimentos outros que andou semeando nos jardins dos outros, porque a vida nos devolve, agora ou depois, o que lhe damos. Ao resgatarmos nossos débitos passados, em expiações dolorosas, crescemos. Estamos aptos a novamente caminhar na direção de Deus.
Há outro aspecto do progresso que temos que levar em conta, o material. Alexander Fleming, trabalhando num hospital na França durante a Primeira Guerra Mundial, desenvolveu técnicas que melhoravam o tratamento de feridas infectadas. Em Agosto de 1928, quando saiu de férias
por esquecimento, deixou algumas placas com culturas de estafilococos sobre a mesa, em lugar de guardá-las na geladeira ou inutilizá-las, como seria natural.
Quando retornou ao trabalho, em setembro, observou que algumas das placas estavam contaminadas com mofo, fato que é relativamente freqüente. Colocou-as então, em uma bandeja para limpeza e esterilização com lisol. (...)
O fungo foi identificado como pertencente ao gênero Penicilium, donde deriva o nome de penicilina dado à substância por ele produzida. Fleming passou a empregá-la em seu laboratório para selecionar determinadas bactérias, eliminando das culturas as espécies sensíveis à sua ação.
 A descoberta de Fleming não despertou inicialmente maior interesse e não houve a preocupação em utilizá-la para fins terapêuticos em casos de infecção humana até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939.
 Em 1940, Sir Howard Florey e Ernst Chain, de Oxford, retomaram as pesquisas de Fleming e conseguiram produzir penicilina com fins terapêuticos em escala industrial, inaugurando uma nova era para a medicina - a era dos antibióticos. [10]
            Na questão 745 Kardec indaga aos Espíritos da Codificação o “que se deve pensar daquele que suscita a guerra para proveito seu”, ao que eles respondem: “grande culpado é esse e muitas existências lhe serão necessárias para expiar todos os assassínios de que haja sido causa, porquanto responderá por todos os homens cuja morte tenha causado para satisfazer à sua ambição.” [11] Segundo o historiador Luiz Mir, 80% dos crimes são de inspiração econômica.[12] Na guerra, atualmente, muitos ganham dinheiro. A indústria armamentista fatura alto, bem como a construção civil, no “esforço de reconstrução” dos países destruídos, além do sistema financeiro, através da concessão de empréstimos para estas obras. A invenção do terrorismo, após a queda do muro de Berlin e o fim da União Soviética, certamente serviu para que o mercado de armas aquecesse, após a Guerra Fria (que não foi nada fria em países de Terceiro Mundo). Nos conflitos que observamos no Oriente Médio, da década de 1990 até o presente, notamos o desvelado interesse no controle do petróleo, recurso natural que caminha a passos largos para o esgotamento, sendo ainda importante matriz energética no mundo, apesar de pesquisas voltadas para a utilização de água como combustível.
            Quase sempre, ao pensarmos em um “modelo de guerra” remetemo-nos à Segunda Guerra Mundial, pela sua grandeza de proporções. Segundo John Keegan, houve 20 milhões de mortes na Primeira Guerra e 50 milhões na Segunda. [13] Somente de judeus mortos, estima-se que tenham sido em torno de 6 milhões de almas. E nos lembramos de Adolf Hitler, colocando-o na categoria de primeiro culpado do combate que massacrou a tantos. Mas... Será que ele agiu sozinho? Será que seus contemporâneos alemães não se identificavam com os valores que ele defendia? Hitler fez a guerra sozinho? A Alemanha, ao final da guerra, podia ser considerada um país derrotado ou um país libertado? Na França ocupada pelos nazistas na Segunda Guerra (de Vichy), muita gente colaborou com o regime nazista e, depois da derrota alemã, com a França novamente livre, foi construída a imagem de que todos foram resistentes à ocupação nazista. No Brasil, no período de redemocratização após o Golpe Civil-Militar de 1964, as reconstruções das memórias colocaram, como defensores da democracia, elementos que anteriormente simpatizaram ou colaboravam com a direita golpista. Essas responsabilidades individuais, graduadas de acordo com o papel que cada um teve no conflito, serão levadas em conta pelo maior e mais perfeito tribunal de justiça que dispomos: nossa consciência, onde estão inscritas as leis de Deus. As nacionalidades, os grandes grupamentos humanos, pelos valores que compartilham, pelas atitudes que assumem ou deixam seus governantes assumirem, responderão perante a Lei Divina. A cada um segundo suas obras.
            Recordo-me da narrativa do Espírito André Luiz, em Nosso Lar, a respeito da maneira como observava os efeitos da Segunda Guerra Mundial. Segundo ele, as nações agressoras não são consideradas inimigas, mas desordeiras, sendo necessário reprimir-lhes o desequilíbrio.
Observei, então, que as zonas superiores da vida se voltam em defesa justa, contra os empreendimentos da ignorância e da sombra, congregados para a anarquia e, conseqüentemente, para a destruição. Esclareceram-me os colegas de trabalho que, nos acontecimentos dessa natureza, os países agressores convertem-se, naturalmente, em núcleos poderosos de centralização das forças do mal. Sem se precatarem dos perigos imensos, esses povos, com exceção dos espíritos nobres e sábios que lhes integram os quadros de serviço, embriagam-se ao contacto dos elementos de perversão, que invocam das camadas sombrias. Coletividades operosas convertem-se em autômatos do crime. Legiões infernais precipitam-se sobre grandes oficinas do progresso comum, transformando-as em campos de perversidade e horror. Mas, enquanto os bandos escuros se apoderam da mente dos agressores, os agrupamentos espirituais da vida nobre movimentam-se em auxílio dos agredidos. [14]
            Kardec torna a indagar aos Espíritos se é crime aos olhos de Deus o assassínio, e eles respondem-lhe que sim, sendo mesmo um grande crime, uma vez que “aquele que tira a vida ao seu semelhante corta o fio de uma existência de expiação ou de missão.” [15] Um Espírito deixa de ter a chance, na carne, de crescer espiritualmente. Deixa de lado uma programação de expiação ou provas que o faria tornar-se melhor. Mas como nada acontece por acaso, se a pessoa é vitimada, não está sendo injustiçada por Deus. No seu passado espiritual, muito provavelmente, fez vítimas. Ninguém nasce programado para ser assassinado, mas ninguém é assassinado por acaso. Aquele que assassina torna-se instrumento da Lei que faz com que o assassinado resgate erros de outras encarnações (quem sabe, até o de ter matado alguém). Mas o fato de tornar-se instrumento da lei não o isenta. “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” [16]
            A culpabilidade do assassínio é variável. Deus, segundo a resposta à pergunta 747, “julga mais pela intenção que pelo fato.” [17] Mesmo o Direito Penal distingue o homicídio doloso (quando existe a intenção explícita de matar) do homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Empunhar uma arma para tirar a vida de alguém é considerado de uma maneira e atropelar acidentalmente alguém (sem embriaguês ou desrespeito às leis de trânsito) é considerado de outra forma, tanto na lei humana, quanto na Lei Divina.
            Em caso de legítima defesa, segundo os Espíritos na pergunta 748, desculpa Deus o assassínio, sendo que os Espíritos observam que “desde que o agredido possa preservar sua vida, sem atentar contra a de seu agressor, deve fazê-lo.” [18] Durante a guerra, se constrangido pela força, o homem não tem culpa dos assassínios que cometa. Pela força podemos entender por ordem de seus superiores. Penso que ainda não é tranqüilo, para o pacifista, recusar-se a combater. As penalidades, acredito, variaram muito na história. Imagino que em alguns casos essa penalidade possa ter sido até a morte, quando não a prisão, como o caso de Cassius Clay, boxeador estadunidense, também conhecido como Muhammad Ali (porque convertido ao Islamismo), que se recusou a lutar na Guerra do Vietnã. Assumir o risco que implicam a opção de não matar é muito mais meritório que escolher a possibilidade de matar, aceitando uma convocação para alguma guerra.
            Kardec indaga aos Espíritos qual crime é mais condenável aos olhos de Deus, se o infanticídio ou o parricídio, ao que as inteligências codificadoras respondem que “ambos o são igualmente, porque todo crime é um crime.” [19]
            Por fim, na pergunta 751 temos
Como se explica que entre alguns povos, já adiantados sob o ponto de vista intelectual, o infanticídio seja um costume e esteja consagrado pela legislação?
“O desenvolvimento intelectual não implica a necessidade do bem. Um Espírito, superior em inteligência, pode ser mau. Isso se dá com aquele que muito tem vivido sem se melhorar: apenas sabe.” [20]
            De quais povos Kardec estaria se referindo? A pergunta não nos deixa claro. Ele e seus contemporâneos sabiam onde estava acontecendo isso. Além disso, penso que por dever de caridade, buscando amenizar culpas e, até mesmo, pensando no alcance que teria O Livro dos Espíritos, buscou não ser tão explícito. Segundo a historiadora Vivian da Silva Paulitsch, 
A percepção dentro da comunidade médica contemporânea, entretanto, era de que o infanticídio e o aborto estavam sendo praticados em um alarmante ritmo. (...) uma mudança ocorreu no tipo de mulher que costumavam dirigir-se ao aborto – da “garota seduzida” do começo do século XIX, para depois de 1880, a “mulher casada buscando o controle do tamanho da sua família”. [21]
            A autora refere-se à Europa do século XIX, de Kardec! Mas a pergunta permanece: Onde era realizado? Segundo a historiadora, na primeira metade do século XIX, na Europa, países como Inglaterra, Alemanha e França possuíam leis cada vez mais rigorosas para as práticas de aborto e infanticídio (...)”. [22] Países considerados de vanguarda para a civilização, tanto na época de Kardec, quanto nos dias de hoje. Não foram nos estadunidenses que inventaram a bomba atômica e a lançaram no Japão? Não foram eles que usaram contra os vietnamitas do Norte o napalm, uma arma química que provoca queimaduras de até 5º grau (que atingiam músculos e até ossos)? Não foram eles que usaram (ainda usam?) balas de urânio empobrecido contra as populações do Iraque?
Segundo uma audição no Congresso da Comissão de Benefícios por Incapacidade de Veteranos, mais de meio milhão de veteranos sofrem de doenças não diagnosticadas, as quais podem ou não ser devidas à radiação. A doença da radiação é considerada por alguns investigadores como a principal causa da síndrome da Guerra do Golfo — uma doença que envolve o enfraquecimento do sistema imunitário que muitos veteranos da Guerra do Golfo têm relatado. [23]
                Todos esses seres humanos viveram muito, aprenderam bastante em matéria de tecnologia, mas não aprenderam a ser humanos! Enquanto vamos aprendendo a ser mais humanos, tenhamos em mente que
É o espírito de cooperação, não o de confronto, que faz o mundo girar. A maioria das pessoas passa a maior parte de seus dias em um espírito de companheirismo e busca por quase todos os meios evitar a discórdia e propagar divergências. [24]
            Temos que aprender a manter este espírito de cooperação que o historiador da guerra conseguiu captar da essência humana e levá-lo a agir quando injustiças sejam cometidas contra os mais fracos, bem como também vigiarmos e orarmos a fim de que os preconceitos de que ainda não nos despimos considerem normal pessoas serem machucadas por outras pessoas, que ainda não descobriram sua humanidade.


[1] FERNANDES, Luna. Se há tanta paz. Disponível em: http://www.marabmi.com/Paz Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1995, p.351. Grifos meus.
[3] Vídeo: Wikileaks mostra como americano mata civis no Iraque. Disponível em: http://www.conversaafiada.com.br/video/2010/12/12/video-wikileaks-mostra-como-americano-mata-civis-no-iraque/ Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[4] OLIVEIRA, Marco Aurélio Gomes. Anti-semitismo e suas conseqüências. Disponível em: http://transformandomundo.blogspot.com/2008/07/o-anti-semitismo-e-suas-consequncias.html Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[5] Idem.
[6] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 351.
[7] Mahatma Gandhi. Disponível em: http://cadernoaquariano.blogspot.com/2011/04/mahatma-gandhi.html Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[8] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 351.
[9] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[10] RESENDE, Jofre M. FLEMING, O ACASO E A OBSERVAÇÃO. Disponível em: http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende/penicilina.htm Último acesso em 5 de Outubro de 2011.
[11] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[12] MIR, Luiz. Guerra Civil. São Paulo: Geração Editorial, 2004, p. 505.
[13] KEEGAN, John. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 80.
[14] XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Rio de Janeiro, FEB, 1996, p. 226. Disponível em: http://www.sej.org.br/livros/lar_br.pdf Último acesso em 6 de Outubro de 2011. Grifos meus.
[15] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[16] Mateus, 18:7.
[17] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 352.
[18] Idem.
[19] KARDEC, Allan. Op. cit., p. 353.
[20] Idem.
[21] PAULITSCH, Vivian da Silva. Aborto e Infanticídio: Representações na arte do século XIX. Disponível em http://anpuhsp.org.br/downloads/CD%20XVII/ST%20XXVII/Vivian%20da%20Silva%20Paulitsch.pdf Última consulta em 6 de Outubro de 2011.
[22] Idem.
[23] WILLIAMS, John. O urânio e a guerra - Os efeitos das armas com urânio empobrecido usadas no Iraque. Disponível em http://resistir.info/iraque/uranium_p.html Último acesso em 6 de Outubro de 2011.
[24] KEEGAN, John. Op. cit., p. 492. Grifos meus.